TUDO NA VIDA É QUESTÃO DE ESCOLHA – Doug Boyd
fevereiro 2nd, 2008 at 10:15 am (Relatos significativos da vida real)
Citarei a verdade onde a encontrar”.
(Richard Bach)
‘Olho de Hórus’
‘O Portal aos Mistérios’
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“Sei que para tudo há uma razão. Talvez na hora não tenhamos o discernimento nem a percepção para compreendê-la, porém, com tempo e paciência, ela acaba por se revelar”. (Cf.: ‘Muitas Vidas Muitas Mestres’. Dr. Brian Weiss).
‘Tudo na Vida é Questão de Escolha’ – Introdução: Doug Boyd
“As cenas que se seguem são histórias verídicas de pessoas reais, acontecimentos e episódios reais de meus próprios diários de viagens e aventuras. Raramente mantive diários escritos, mas sempre mantive diários mentais — sempre mantive lembranças claras e vivas. Com o passar dos anos, devo ter contado estas histórias dezenas de vezes em minhas viagens e palestras por todo o país”.
“Compartilhando estas histórias, acredito estar ajudando a compartilhar uma visão — não a minha e nem a sua visão — mas a nossa visão… devemos alcançar nossas visões coletivas — as visões que compartilharemos (…) Vamos iniciar nossa caminhada nesta Terra — não como uma busca por esclarecimento ou proveito pessoal, mas para que possamos sentir o batimento de nosso coração coletivo”. (Doug Boyd).
A Sabedoria de um Venerável Camponês Oriental
Cena Um – O Campo Mental do Camponês
Seul, capital da Coréia, foi se ocidentalizando a um nível surpreendente durante os anos que passei lá. Parecia se modificar quase diariamente. Outras cidades foram afetadas, mas Seul era o centro em torno do qual girava o país. Para que se consiga realmente entender a Coréia, tem-se, é claro, de conhecer algo das antigas tradições que permanecem intactas nos campos e nas aldeias do país. Mas a Coréia atual — e a futura — poderia ser vista em desenvolvimento na capital da nação. O que eu mais queria era vivenciar o Extremo Oriente – para ver e sentir a filosofia e o estilo de vida do antigo Oriente…
Trabalhei na Coréia por quase uma década. No início de minha estada lá, morei com um estudante que conheci através de um amigo. Morávamos em uma casa de dois andares em um subúrbio que, visto do centro da cidade, onde eu trabalhava, situava-se a sudeste de Seul, do outro lado do rio Han. Este estudante provinha de uma aldeia agrícola na província sulista de Chung Ang; mas, enquanto cursava a universidade em Seul, morava com sua irmã mais velha e seu cunhado. O cunhado estava tentando comprar essa casa, e como eu precisava de um lugar para viver, decidi auxiliar no projeto, alugando o andar superior.
Meu amigo universitário era o mais moço de muitos irmãos, 4 irmãos e irmãs, todos morando no campo, com exceção dele próprio e de sua irmã mais velha, casada com um funcionário que trabalhava em Seul. Segundo a tradição coreana, ser o mais moço da família proporcionava ao meu amigo uma maior parcela de liberdade. Sua família era enorme — um clã que abarcava quase a aldeia inteira — e toda a população além dos parentes tinha o mesmo sobrenome. Dei a ele um nome ocidental, e (com o auxílio de seu pai camponês) deu-me um nome coreano. Aqui vou chamá-lo de Jay.
O pai de Jay era o primeiro filho do primeiro filho do primeiro filho, e assim por diante — desde o momento em que começaram a haver filhos naquele clã. E este fato proporcionou-lhe um domínio espiritual e prático sobre toda a vasta árvore familiar. Era o patriarca e um esteio para o seu povo, e considerado sábio. Raramente se aventurava fisicamente além dos limites das poucas dúzias de casas, campos e plantações de arroz; mas com a sua visão de mundo tranqüila e filosófica, ele ponderava sobre a natureza e o processo das questões humanas, e seu povo sentia que ele compreendia o mundo. E os aldeões submetiam ao seu julgamento, ansiosa e freqüentemente, cada ato e situação de suas vidas.
Quando a mãe de Jay atingiu sessenta e um anos, iniciando assim sua segunda revolução do ciclo astrológico (aniversário muito importante na tradição asiática), houve uma grande celebração no campo. E para lá se encaminharam parentes das redondezas e toda a aldeia participou. Esta ocasião foi a minha oportunidade de conhecer a família camponesa de Jay. Para um acontecimento tão especial, com tantas pessoas tradicionais, eu precisaria recordar os costumes que conhecia e aprender aqueles que eu não sabia.
Para isso, foi necessário algum treinamento. Tive de aprender, inicialmente, como as pessoas se cumprimentavam nas aldeias agrícolas das províncias sulistas da Coréia. “Não fique simplesmente de pé e se curve”, fui advertido, “e não dê apertos de mão, porque os velhos camponeses coreanos jamais viram este tipo de coisa. Os velhos não saberiam o que fazer. Ou, se soubessem, considerariam isso muito indelicado”.
Para se executar a tradicional inclinação é necessário ajoelhar-se no chão, inclinando os joelhos, as mãos e a cabeça na ordem adequada — e na colocação precisamente correta. Pratiquei isso muitas vezes, esperando parecer equilibrado é natural o bastante quando chegasse o momento de fazer aquilo de verdade.
Mas quando cheguei com meu amigo em sua casa de tijolo de barro e telhado de colmo, no campo, o velho camponês barbudo estava esperando — e havia sido tão bem preparado para mim quanto eu para ele. Rapidamente pôs-se de pé, seus olhos dourados brilhando, e estendeu sua mão aberta. Mas não apertamos as mãos. Imediatamente eu me ajoelhei e inclinei minha cabeça entre minhas mãos. Então ele fez o mesmo. Segundo o costume, há frases polidas que devem ser ditas em ocasiões como esta. Eu não disse uma palavra, embora tivesse minha saudação já preparada. Não consegui falar nada. O velho sorriu, tentando parecer o mais amável e gentil que podia. Isso me pareceu confortador e tranqüilizador, e a partir daquele momento, apesar de saber que havia algumas pessoas que quase o temiam, percebi que éramos amigos. “Você fez uma longa viagem muito fatigante”, disse-me ele.
Achei fácil conversar com a mãe de Jay. Ela era uma mulher pequena, que aparentava todos os seus sessenta e um anos. Mostrou-me o lugar onde eu iria dormir, arrumado com um mosquiteiro, e pediu desculpas, à maneira tradicional, pela fadiga da viagem e por sua casa modesta. Enquanto conversávamos, observei a bandagem que envolvia a sua mão direita. Lembrei-me de que Jay me havia contado sobre a época em que os exércitos estavam lutando ao sul, próximos a sua fazenda, e os aldeões arrastaram-se para o alto das colinas na escuridão da noite. Esta mãe amedrontada tropeçou em um sulco e caiu pela encosta. Desde aquele dia, sua mão direita perdeu os movimentos, mas todos aqueles anos, desde a guerra, com aquela mão aleijada, ela continuou costurando roupas, limpando chão e debulhando arroz.
Felizmente, havia inúmeros amigos e parentes lá nesse dia, e ela era servida e não lhe permitiam trabalhar. Uma pequena cabana de palha e bambu foi construída no pátio de terra batida atrás da casa, especialmente para as festividades, e nessa cabana as senhoras da aldeia estavam alegremente ocupadas, lidando com vegetais, carnes, nozes, verduras, raízes, arroz, queijo de soja e grande quantidade de alho e pimentas. Muitos amigos e parentes vieram de outras cidades e aldeias; e esta residência, que era muito grande para uma casa no campo, estava agora apinhada de gente. Disseram-me que eu era o primeiro ocidental a ser convidado para esta casa ou para visitar esta aldeia. Jay levou-me para fora e guiou-me através de um gramado, até ficarmos longe de todas as vozes ruidosas e da confusão. “E gente estranha demais para você”, disse ele. “Acho que todos o estão olhando muito.”
O campo coreano era encantador. Ali na campina não havia qualquer som, exceto alguns pássaros chilreando perto de um córrego borbulhante. Passamos por algumas pequenas casas com telhado de colmo, construídas ao longo da margem do córrego, caminhamos pelos estreitos caminhos que se estendem entre as plantações de arroz e depois retornamos, bem a tempo para o jantar.
Uma mesa separada foi colocada em um pequeno aposento para Jay, eu e dois de seus irmãos. Havia dúzias destas mesas separadas espalhadas por toda a casa e até mesmo nos corredores. e as pessoas comiam em pequenos grupos.
Depois da refeição, o irmão mais velho de Jay sugeriu que ele saísse novamente comigo. Talvez achasse que eu não deveria ficar ali durante o processo de limpeza. Jay mostrou-me a privada do lado de fora da casa, explicando que era preciso que eu me familiarizasse com o ambiente enquanto houvesse luz do sol para enxergar. Esta era a primeira vez que eu via uma privada externa construída sobre um chiqueiro. Podia-se olhar para baixo através dos buracos e ver os animais resfolegando, arrastando-se de um lado para o outro.
Passeamos próximo à casa até depois do pôr-do-sol. O canto dos grilos mesclava-se com o som das inúmeras vozes que vinham de dentro. Através das janelas, podíamos ver a luz bruxuleante das lamparinas. Ficamos ouvindo os grilos até que alguém nos chamou para dizer que todos haviam se reunido na sala principal. Quando entramos, vindos do escuro, as pequenas chamas tipo velas dos muitos candeeiros proporcionavam uma luz ampla — os aposentos e os corredores tinham um brilho quente e confortante.
Jay e eu parecíamos ser os últimos a entrar na sala de reunião, que eu havia aprendido ser chamada de sala da amizade em coreano. Este aposento era tão grande quanto duas salas médias — e evidentemente não possuía mobília, exceto uma mesa com refrescos e muitas almofadas, todas elas ocupadas pelas muitas pessoas que enchiam o aposento. Jay me havia dito que isso era para ser uma festa, uma reunião social de amigos que precederia a formal cerimônia tradicional do dia seguinte.
Duas crianças estavam de pé na altura dos ombros do pai, abanando-o e segurando ao seu alcance uma bandeja de prata com uvas e vinho de arroz. Neste ambiente, ele realmente parecia o rei da aldeia. O velho homem bateu no chão e me chamou para sentar ao seu lado. Estendeu sua palma aberta com uma risada e instou-me a apertar-lhe a mão. Em seguida entregou-me uma pequena taça e disse a um dos mais jovens que a enchesse com vinho de arroz. Afastei dele a minha cabeça e, colocando meu queixo sobre o ombro, ergui a taça à tradicional maneira coreana de se beber diante dos idosos.
Ele me interrompeu com um tapinha no ombro e falou uma palavra em inglês: “Stop!” Então inclinou-se para a frente para olhar seu filho mais moço, que estava sentado do meu outro lado. Gritou em coreano. Seu tom era severo, mas ele estava sorrindo. “O que você fez a este pobre companheiro,” perguntou ele, “dando-lhe todas estas instruções e restrições no primeiro dia? Não quero que ele fique com medo de mim. Quero que ele volte!”. Pôs sua mão em meu queixo e girou o meu rosto de frente para o seu. “Como posso dizer isso em inglês – algo como nossos ‘dez mil vivas?” – “Eu não sei”, respondeu Jay.
“Here’s to your health”. [À sua saúde], disse alguém. “Como? Fale mais alto!” “Here’s to your health”. -“Não, não. Isso é muito difícil — não consigo dizer isso”. Ele bateu sua taça contra a minha, fazendo um tinido alto e derramando gotas de nosso vinho; então, segurando firme o meu pulso, ajudou-me a esvaziar seu conteúdo em minha boca. Enquanto isso, olhei para o seu rosto. Ele parecia encantado.
“Agora diga ao seu amigo que vou falar sobre comida, vinho e indulgência. Diga-lhe que você lhe explica depois, e deverá traduzir, porque ele não poderá compreender”.
Falou durante um longo tempo e de um modo animado, com a entonação tipo sirene utilizada pelos antigos nobres coreanos. Ele estava certo. Não consegui entender uma palavra. Quando terminou de falar, começou a cantar. Iniciou suavemente com sons baixos e guturais, de tal maneira que, no princípio, eu não poderia dizer que iria ser uma canção. Mas ela se tornou animada e lírica e provocou gestos e meneios de cabeça do velho homem, à maneira de um dançarino clássico coreano. Ele parou, e o silêncio era total. Neste meio tempo, ninguém havia se movido. Voltou-se para mim e disse algo assim: “Bem, fiz tudo isso para obter o direito de insistir que você nos ofereça uma canção”.
Eu estava hesitante. Imaginava o que possivelmente eu poderia apresentar que pudesse ser qualificado como canção, na visão deste velho coreano tradicional. O cunhado de Jay assobiou “Oh, Danny Boy”. Ele já me havia ouvido cantá-la.
“Bom, bom”, disse o velho homem quando minha canção terminou. “Agora é direito seu indicar o próximo a se apresentar”. Passou os olhos pela sala, considerando o grande número de visitantes sentados no chão. “Mas primeiro eu vou me recolher, para que possam todos se divertir”.
Levantou-se e caminhou lentamente pela extensão da sala, enquanto as pessoas se afastavam e se deslocavam para lhe dar passagem; inclinando-se para passar por uma pequena porta de correr no fundo da sala, ele desapareceu. Quando estava fora da vista, alguns homens idosos levantaram-se e silenciosamente saíram pela mesma porta.
Toda esta multidão instantaneamente se transformou: houve suspiros de alívio muito explícitos — e muito altos — e toda a sala irrompeu em risadas. As pessoas descruzavam as pernas, levantavam os joelhos e caíam de costas sobre as pessoas que estavam atrás. Acenderam cigarros, serviram-se de vinho, e alguns começaram até a jogar uvas uns nos outros. Fui dispensado de ter de escolher alguém para cantar. “Aquela é a sala íntima de meu pai”, explicou-me Jay, “aquela de que lhe falei. Poucas vezes fui chamado a ir até lá, mas na verdade é o seu lugar particular de encontro com os amigos idosos”.
- “As pessoas estavam se sentindo desconfortáveis com ele aqui?” – perguntei a Jay.
- “Isso é apenas difícil, porque o nosso costume é muito formal. Não podemos nos divertir se ele estiver aqui, e todas as outras pessoas desejam fazer uma festa. Ele sabe disso. Seja como for, hoje está muito diferente. Achamos que é por sua causa. Jamais o vimos tomar vinho e cantar uma canção. É a primeira vez que todas estas famílias e amigos vêem isto. Nem minha mãe jamais o havia visto se comportar assim. Ele só fazia isso na sala íntima com seus amigos idosos. Mas é tão bom e interessante. Por isso as pessoas riram quando ele saiu”.
- “Quando ele falou — sobre o vinho e tudo o mais — não consegui entender uma palavra. O que era? Ele disse que você explicaria, não é mesmo?” Perguntei a Jay.
- “Mas nem eu consegui entender. Às vezes ele usa nosso estilo antigo de falar. Realmente, eu não sei o que ele falou. Talvez apenas os velhos saibam. Na verdade, não estava falando sobre vinho. Esta era a conversa aparente para o tema secreto”. Jay chamou seu cunhado, que veio sentar-se ao nosso lado.
- “Meu cunhado sabe muita coisa sobre filosofia profunda. Talvez ele possa me explicar — e então eu lhe contarei em inglês”. O cunhado conversou com Jay durante certo tempo, no que parecia uma discussão meticulosa sobre a mensagem do velho camponês, e depois arrastou-se de volta pelo chão para reassumir o seu lugar ao lado da irmã de Jay. – “Não, não podemos lhe explicar isso”, disse Jay.
- “Você quer dizer que não consegue explicá-lo em inglês?” – “Não, não é uma coisa para se explicar. Não podemos expressá-la em nenhuma língua. Meu cunhado diz que pode compreendê-la, como um sonho, mas não consegue explicá-la. Se tentar explicar, depois ele também não conseguirá entender”.
- “Foi isso que ele lhe disse?” – perguntei.
- “Olhe vou-lhe mostrar como é”. Com a ponta do dedo, Jay fez um diagrama imaginário no chão. Desenhou dois círculos e uma linha ligando um ao outro. “Este aqui é o nosso lugar habitual, como nosso local habitual do pensamento, e nossa mente em geral fica aqui. Este outro é o local da compreensão profunda e a nossa mente pode, às vezes, chegar até aqui”.
“Mas a maioria das pessoas não consegue ir até esse lado — talvez apenas durante o sono. Muito bem, mas esse lado da compreensão profunda não contém nada como explicação ou uma descrição. Por isso, meu cunhado disse que se ele quiser explicar, deve vir para cá, para o lado da explicação — mas aí não pode compreender coisas como aquelas que meu pai falou. Se ele está no lado da compreensão, pode ter a experiência, mas não pode dar a explicação, porque se tentar explicar a explicação o empurra para fora” …
“Ele diz que este mundo não é real, e apenas uma descrição do real. A compreensão pertence ao mundo real, e a explicação ao mundo irreal. Meu cunhado não pode estar nos dois mundos ao mesmo tempo — por isso não pode explicar. Você compreende?”
- “Sim, acho que sim”, respondi.
- “No caso do meu pai, este está sempre aberto”. Ele moveu o seu dedo para trás e para frente através da ponte imaginária entre os dois estados ou domínios mentais que estávamos visualizando. “Estamos sabendo disso sobre meu pai. Ele está aqui, e ao mesmo tempo está sempre ali. A fala desta noite foi um pouco estranha, porque as pessoas queriam festejar e não conseguem entender este tipo de vocabulário. Mas meu cunhado, ele pode compreender. Então, disse-me que a fala de meu pai abre esta ponte para as pessoas, para que elas possam chegar ao outro lado. Meu cunhado pode passar. Mas ele deve estar aqui ou ali — somente em um lugar cada vez. Foi o que me disse, mas creio que você não pode compreender”.
- “Não, eu acho que posso. Acho que compreendo. Mas como você disse, a explicação não é importante; o que importa é a abertura. Entretanto, eu desejaria ter compreendido a língua. Não pude nem passar para a parte de fora”.
A cerimônia do aniversário no dia seguinte foi realmente um acontecimento formal — altamente ritualizado — e até alguns dos aldeões, especialmente os jovens, tiveram de ser instruídos no procedimento à medida que ele ocorria. E isso tomou a maior parte do dia, pois cada um dos presentes, individualmente, tinha de se aproximar da mãe em sua poltrona tipo trono, inclinar-se e oferecer-lhe uma taça de vinho. Ela simulava beber, mas depois esvaziava cada taça em uma bacia ao lado de sua poltrona. Imaginei que este era o procedimento padrão, pois ninguém poderia ingerir quase cem taças deste vinho de arroz feito em casa, especialmente aos sessenta e um anos de idade.
Após a cerimônia, as pessoas ficaram outra vez animadas, acotovelando-se, dando risadinhas e correndo atrás umas das outras em volta da casa. Eu havia pedido emprestada uma câmera para minha viagem até o campo, e queria tirar algumas fotos enquanto havia luz natural. Todas as crianças e a grande maioria dos aldeões queriam aparecer nas fotos. Depois queriam estar em uma foto comigo — não que achassem que algum dia a veriam, mas para me dar prazer. Jay utilizou alguns rolos de filme tirando as fotos. E fez a foto minha com o chapéu de trabalho de um velho camponês e um cavalete em forma de ‘A’ carregado de feno preso às minhas costas. Tirei algumas dele com sua mãe e outra com seus pais sentados no alpendre.
Solicitei uma foto de seu pai sentado sozinho. Ele entrou e reapareceu alguns momentos depois vestindo um belo traje coreano tradicional feito de brocado de seda e fios de ouro. Era composto de uma jaqueta de seda branca e um colete com pedras preciosas como botões. A mãe trouxe o seu chapéu negro e alto, feito de crina de cavalo, seu cachimbo de tubo longo e um leque elegantemente pintado. O velho patriarca sentou-se em sua almofada e posou para a foto. Depois do pôr-do-sol, sentou-se em sua sala especial e chamou Jay para uma conversa particular.
No dia seguinte, Jay falou-me sobre aquela conversa enquanto viajávamos de volta a Seul no trem que ia para o norte. Era muito raro para ele ser convidado a penetrar no espaço privado de seu pai — muitos da família jamais estiveram naquele aposento — e Jay supunha que isto em parte aconteceu porque ele estava na universidade e vivendo fora de casa, e em parte porque havia ido até lá comigo. Jay achava que, agora que seu pai havia me conhecido, estava preparado para apreciar o fato de ele estar morando em Seul e ser mais compreensivo quanto à mudança em suas maneiras. Haviam tido uma conversa muito amigável sobre seus estudos e sobre seus planos.
- “Seja como for, ele é sempre muito agradável e gentil comigo, em comparação com os outros”, disse Jay, “porque sou o mais moço e este é o nosso costume em nossas famílias no campo. Ele me ama muito, mesmo que jamais o diga diretamente. Faz muitas coisas para provar isso, e quer que eu o perceba. Sabe, ele sempre me surpreende — e, desta vez, surpreendeu a todos. Jamais o vimos agir assim antes”.
- “Você quer dizer cantando diante de toda aquela multidão de convidados?”
- “Ele jamais havia deixado que lhe tirassem uma foto. Você é o primeiro a fazê-lo. O único. Mesmo nos casamentos da família, ele evitava as fotos. Jamais permitiu que alguém tirasse uma foto sua”.
- “Eu realmente desconhecia isso”, disse eu. “Talvez não devesse ter pedido — ou você deveria ter-me dito”.
- “Não, ele estava satisfeito”…
- “Por que você acha que ele estava desejando isso?” Jay lhe havia perguntado isso durante seu encontro privado, e agora me descrevia o que seu pai lhe havia dito. Jay estava demasiado curioso e confuso para não se referir a esse fato. Por isso, perguntou a seu pai se ele havia apertado a minha mão e oferecido o vinho e apresentado a preleção e a canção para causar uma impressão favorável em um americano. E o questionou sobre o motivo dele haver-me permitido tirar-lhe duas fotos, quando o havia recusado à sua própria família em ocasiões especiais.
“Eu não faço nenhuma lei”, respondera seu pai. “Jamais fiz. Não possuo minhas próprias regras — nem para mim nem para ninguém. Sigo apenas as leis do meu país, as leis da natureza e os costumes de nossas antigas tradições. Em cada caso, eu simplesmente me adapto a elas. Não sou necessário nas fotografias familiares. Isso não acrescenta nada, antes subtrai dos outros”.
“Eu faço o que faço apenas para me ajustar ao que sou. Sou o primeiro filho que, por nossos antigos costumes, é o principal herdeiro desta grande fazenda, e devo fazer o que se espera que eu faça. Se possuo algumas preferências próprias que não se ajustam a minha posição, devo estar disposto a mudá-las. Assim sendo, controlo as minhas preferências. Se algum dia eu tivesse de viver na América, você se surpreenderia com o quanto poderia me modificar”.
“Jamais pretendi que tirassem uma foto minha. Toda a minha família sempre soube disso, de modo que nunca houve problema quanto a isso. Esta tarde fiz algo que nunca havia feito no passado — e o fiz voluntariamente. Quando você for um homem, pode fazer o que quiser. Mas quanto a mim, só evitarei uma única coisa — e não é a câmera. Evitarei preferências estabelecidas. É uma tolice ter preferências que se fixam com obstinação onde claramente não se ajustam e atingem até a própria decisão e o discernimento de uma pessoa!”
Algum tempo depois de nosso retorno desta visita à casa da família de Jay, ele teve ocasião de fazer novamente essa viagem. Desta vez, foi sozinho, e com extrema pressa e ímpeto, realizando o trajeto de dez horas para o sul com uma necessidade repentina de conversar com seu pai sobre uma questão familiar urgente.
Uma jovem que vivia naquela aldeia — prima em segundo grau de Jay — estava solicitando permissão para casar-se com um músico moderno que vivia em Seul. Os pretensos apaixonados só teriam se encontrado muito brevemente em um evento da aldeia, e este cavalheiro propôs-lhe casamento. Não era a maneira tradicional. Além disso, ele era muito velho e sofisticado para esta jovem prima camponesa. Os aldeões buscaram o aconselhamento do venerável velho pai do meu amigo — mas o velho patriarca não se pronunciou.
Tomei conhecimento de toda a situação no dia em que Jay recebeu uma carta da aldeia. Àquela altura eu estava morando há alguns meses nessa casa de Seul, com Jay, sua irmã e seu cunhado, e fazia a maior parte das refeições com eles. Haviam-se tornado como uma família para mim.
“Minha prima está vindo para cá no trem que vem do interior para passar alguns dias aqui conosco”, disse-me Jay. “Seu verdadeiro propósito é ver este sujeito ruim que mora aqui em Seul — eu sei disso. Mas minha irmã diz que devemos recebê-la bem, e temos inclusive de convidar este homem para jantar para que eles possam se encontrar novamente. Imagine, temos de deixar que se encontrem em nossa casa. Não compreendo por que permitem isso. Meu pai poderia proibi-lo. Se falasse francamente, poderia proibir tudo isso”.
Por insistência da irmã, Jay concordou em ir bem cedo ao centro da cidade, no dia em que sua prima deveria chegar. Disseram-lhe que encontrasse esse homem antes que saísse para o trabalho. “Sou o único que pode lhe dizer que sua ‘namorada’ vai chegar”, queixou-se Jay. “Mas, na verdade, eu nem mesmo desejo vê-lo. É meu dever. Tenho de obedecer minha irmã. Visto isso, vou fazer-lhe este convite para jantar. Depois disso, sigo diretamente para a estação e espero a chegada de minha prima. Se o trem não estiver atrasado, talvez chegue a tempo para o almoço”.
Voltou para casa aturdido e sem a prima; já a encontrara na casa daquele homem. Quando bateu à porta, eles apareceram em trajes de dormir. Ela havia vindo no trem anterior, e haviam passado à noite juntos. Jay preparou-se imediatamente para partir para a sua aldeia. Sua experiência inocente não permitia sequer o pensamento de uma questão daquelas, e foi compelido a relatá-la a seu pai.
- “Agora, meu pai ficará zangado, assegurou-me. Isso não é direito em minha aldeia. Vamos interromper tudo isso imediatamente e eles jamais se verão de novo”…
Mas as coisas tomaram outro rumo. Jay retornou muito rapidamente e anunciou não ter permanecido nem uma hora em sua aldeia natal, não mais que metade daquele tempo com seu pai; haviam trocado apenas poucas palavras, e ele não havia explicado nada. O casamento iria ocorrer. Não seria desmanchado.
Jay contou a história toda. No momento em que chegou à estação de sua aldeia, havia desenvolvido tal raiva que atravessou velozmente o campo e entrou em casa correndo e tropeçando. Não encontrou ninguém. Tornou a sair apressado, procurando seu pai pelos campos e ao longo dos caminhos entre as plantações de arroz. Encontrou o velho lavrador em uma dessas plantações, enfiado até as canelas na água, cuidando de suas jovens plantas.
- “Pai, Pai! Eu tenho de lhe falar!” – “Hein! Como? Você quer falar quando mal consegue respirar?” Ele sentou-se na margem, acendeu um fósforo, e calmamente o encostou a uma sanguessuga que estava presa em seu tornozelo.
- “Não fale agora. Seria escutar um tolo. Dizem que um gole de alguma coisa ajuda em casos como este, e eu estou com sede. Vá até a casa e nos traga uma chaleira de chá de cevada frio”. Quando Jay voltou correndo com o chá, ainda estava ofegante.
- “Pai, tenho algo a dizer-lhe”…
- “Você não vai dizer nada. Vai se sentar aqui e acalmar-se. “Agora, derrame o chá na terra”. – “Como, Pai?”
-“Você perdeu também a audição, além da calma?”
- “Não, mas não entendi. Achei que o senhor disse que”…
- “Eu lhe disse que não falasse nada, foi isso. E que derramasse o chá na terra. Se não confia nem nos seus sentidos nem nos meus, é melhor voltar imediatamente”. Jay deixou cair algumas gotas na terra.
- “Tudo! Tudo! Derrame!” Ele esvaziou o conteúdo da chaleira e observou o chá de cevada frio penetrar no solo… “Isso! Vamos tomar agora nossa bebida?”
- “Mas, Pai, acabo”…
- “O que está acontecendo com você? Por que não enche a minha xícara?”
- “Pai, como posso?”
- “Porque eu estou lhe pedindo. Porque estou esperando o meu chá!”
- “Pai, como espera que eu retire o chá de volta da terra?”
- “Aha! Então, talvez você possa aprender alguma coisa com isso. O que espera que eu faça em relação à situação criada em Seul? Como posso revertê-la?” O meu amigo sentou-se silenciosamente ao lado de seu pai e olhou para o chão.
- “Pai, posso perguntar-lhe uma coisa?” – “Pode”.
- “Perdoe-me, senhor, mas me parece que o senhor poderia ter detido aqueles dois antes que chegassem a este ponto”.
- “Detido? Por que eu deveria tê-los detido? Esse relacionamento é como uma noz caindo da árvore. No momento em que você e eu viermos a testemunhar tal coisa, a noz há muito vem se preparando para cair do ramo. Não há como mantê-la lá em cima. Não há caminho de volta”…
“Tudo o que acontece é apenas um elo em uma cadeia — uma seqüência de causas e efeitos. O fato de você ser meu filho e eu seu pai — esta situação é um arranjo antigo. Duas pessoas podem acreditar que estão se encontrando pela primeira vez, enquanto a percepção mais profunda nos dirá que elas já se encontraram muito tempo antes. Seu envolvimento para o melhor ou o pior, pode ser longo em sua história”.
- “Mas isto é destino, Pai, e o senhor sempre disse”…
- “Destino? Olhe para estas plantas novas! Quando este arroz está em nossas tigelas, podemos chamar a isso destino? Evidentemente, podemos observar a chegada da escolha, o processo da ação e o momento do resultado. Mas os assuntos humanos são mais complexos, e as cadeias dos acontecimentos, quando as pessoas não os direcionam, parecem girar em círculos. E as pessoas ficam confusas quanto ao que é plantação e o que é colheita”.
“Tudo é uma questão de escolha. Tudo. E então há os resultados e outras escolhas de cada vez. A questão é com quem está qual escolha e o que deve ser escolhido. Às vezes fracassamos no reconhecimento do momento da escolha. Às vezes fracassamos na compreensão do processo da representação”… O velho camponês levantou-se e avançou com dificuldade pela plantação de arroz.
- “O trem para o norte passa daqui a pouco. Vá e concentre-se em seus estudos”.
O mistério das fotos
“Das poucas fotografias que tirei durante os anos que passei na Coréia, às que mais valorizei foram aquela que bati dos pais de Jay e a de seu pai sentado no alpendre em seu mais belo traje tradicional de seda. Mas finalmente decidi que não havia qualquer motivo para conservá-las.
Quando as revelei em Seul e as examinei através de meu visor de pilha, fiquei desapontado ao descobrir que o rosto do velho fazendeiro estava manchado. Jay e eu podíamos reconhecê-lo suficientemente, mas a desfocagem estragou muito as fotos. Aqueles que conheciam fotografia melhor que eu ficavam confusos diante de tais fotos: era virtualmente impossível apenas o rosto do lavrador ficar desfocado em fotos que de resto estavam tão claras.
O que de início foi um desapontamento tornou-se um mistério. O rosto do homem continuou a sofrer modificações com o passar do tempo — justamente em meus slides — até não existir mais rosto algum. Era como se eu houvesse fotografado um homem sem cabeça com um chapéu de crina. Entre a jaqueta branca e o chapéu negro só havia espaço.
Mostrei esses slides a várias pessoas, explicando que depois de haver batido as fotos descobri que o velho homem jamais havia permitido se fotografar antes. Todos concordaram que, fosse por sua própria natureza, por alguma intencionalidade desconhecida de sua parte, ou por pura coincidência, a prioridade de toda uma vida do velho homem havia prevalecido acima de tudo — embora todas as minhas outras fotos tenham ficado boas.
Com o decorrer do tempo, sua imagem desapareceu completamente, as roupas e tudo o mais, e apenas a mãe permaneceu. Mas finalmente, após vários anos, ela também se foi e eu só tinha nuvens esfumaçadas amontoadas em molduras de 35 milímetros. Aquelas fotos se foram, mas eu ainda possuo a minha memória — e, seja como for, a minha memória me serve melhor do que o fariam os slides.
Aquele venerável velho camponês não era o tipo de pessoa de quem se esqueça. Minha mente conserva a imagem, e ela jamais se desvanece. Sempre que eu quero, ele está ali sentado em seu traje tradicional, com seu cachimbo de tubo longo e seu chapéu negro e alto feito de crina, e posso com clareza descrever sua barba branca e rala, suas maçãs do rosto salientes e os olhos brilhantes. Na verdade, posso recordar o velho camponês em um contexto muito mais amplo do que havia sido captado em minhas fotos. Em meus retratos mentais, vejo não apenas a imagem do velho homem, mas também o seu ambiente. Sua aparência, suas maneiras, seu estilo de vida e seu meio cultural — assim como todas as implicações e responsabilidades impostas por sua tradição cultural — tudo isso permanece claro em minha memória.
Evidentemente, uma fotografia tem uma estrutura muito limitada. Tem uma moldura — ou, pelo menos, margens. Pode ser por isso que ninguém possuía uma fotografia do velho camponês. Havia muita coisa nele que não podia ser retirada do contexto; havia falado naquele aposento apinhado àquela noite — compartilhando a sua filosofia com cada um que o ouviu atentamente — e ninguém fôra capaz de captar ou apreender a explicação concreta do que ele havia dito, Mas uma explicação é categorização, uma classificação. Não há contexto ou seqüência para uma explicação.
Há muita coisa neste mundo que não pode ser compreendida através da análise — através de uma separação. A realidade não pode ser cortada, colhida e contida dentro de limites, Uma foto fora de contexto se desvanece. O velho camponês possuía um senso de seqüência tão sólido e firme quanto o passar das estações do ano.
Poucas pessoas em nossa época ocupam uma posição cultural semelhante àquela do velho camponês. Realmente, poucas vivem em um ambiente físico como o dele. A circunstância terrena em que uma pessoa vive pão a transforma automaticamente em um místico ou um visionário. Mas pode ajudar. O lado místico aparente em alguém que atinge um grau suficiente de percepção e de serenidade. O velho camponês possuía uma vasta estrutura. Podia apertar as mãos de uma cultura muito diferente, se quisesse, e adaptar-se a ela se considerasse adequado. Mas não podia ser captado ou contido.
Em minhas recordações das aldeias e dos campos, parece fácil ver os cenários e não apenas fixar as cenas — e perceber um esquema nos cenários. Os galos matutinos, os grilos noturnos, os campos e os prados, uniformes e extensos, e os ventos e chuvas sazonais — tudo isso apresenta um quadro previsível, mas sempre em evolução. É um quadro com uma abundância de estrutura, sendo fácil seguir o seu fluxo.
Mas não é necessário estar no campo para observar as estações e os ciclos ou desenvolver uma percepção de seqüência e sincronização. A causa e o efeito estão em toda parte. Tudo o que existe está conectado e relacionado; a constante interação da vida ocorre em cada canto do universo.
A perspectiva do místico é a de um contexto não-estruturado e sempre em desenvolvimento — um permanente continuum — tanto em termos de tempo, quanto de espaço. Dentro deste contexto — e isto não é destino, mas um fluxo constante, criativo — cada ser vivo é um fator que funciona conscientemente. Da perspectiva do místico, você pode se ver como um personagem em um drama que se desenvolve infinitamente.
Da perspectiva do místico, você compreende que é essencial para toda a produção, porque se você desaparecer ou cair morto isso vai modificar todo o cenário. (É claro que o desaparecimento é impossível na cena ampla. Você está sempre desempenhando algum papel em algum lugar da cena.) Você compreende que é realmente um co-autor da produção toda. Como co-autor, é livre para se colocar onde julgue adequado; mas é sempre vantajoso para você (e para todos) se a sua atuação fizer sentido dentro do contexto do cenário geral. É uma criação mútua. O elenco pode esperar que você surja com idéias novas para o roteiro. As opções e as oportunidades aparecem em cada cena — e para cada ator — mas sempre dentro do contexto do processo de colaboração em andamento. É claro que todo drama segue adiante: não há volta nem como anular o que já foi representado.
Visto isso, considere o elenco, o roteiro e o cenário em andamento. Considere as conseqüências do passado e as escolhas do presente — e que escolhas pertencem a quem. Deve, portanto, perceber os papéis dos outros atores — e aprender a focalizar não apenas o seu próprio momento monádico, mas também a perspectiva ampla, não-estruturada. Por isso, deve ainda desempenhar o seu próprio papel — e desempenhá-lo do momento presente em diante.
Assim, o velho camponês senta-se, cruza os braços e observa o chá penetrar na terra. A perspectiva do místico está disponível a todos, e o velho camponês faz o possível para invocá-la em seu filho mais moço. Eles sentam-se à margem da plantação de arroz — sob a nogueira — para contemplar o que é possível fazer no momento presente. Não podem colocar o chá de volta à chaleira — nem as nozes que estão no chão de volta à árvore. Não podem anular o que já ocorreu com o casal em Seul. Por isso, o velho camponês diz a seu filho que coloque o seu coração no momento presente e desempenhe o seu próprio papel.
Mas o que aconteceu realmente com os meus slides? O que os fez desaparecer? O que poderia ter sido responsável por eles terem ficado desfocados e finalmente se desvanecerem? Ficamos admirados — e há várias maneiras de se lidar com o que nos surpreende: esquecê-lo, negá-lo, desfrutá-lo ou avaliá-lo.
O velho camponês provavelmente não evocou algum truque modesto para arruinar os meus slides. Se ele soubesse a magia, não precisaria dela, pois, afinal, não necessitava ter-se dado ao trabalho de posar. O camponês não fez nada às minhas fotos. Elas agiram sozinhas, O camponês posou e deixou as coisas correrem, mas ele era quem era, e meus slides reagiram. Todos aqueles anos de intenção constante, concentrada, produziram uma imagem potente — poderosa demais para resistir às minhas revelações — e ela finalmente desapareceu.
Isso proporciona algum sentido a quanto impacto a vida e o desejo de um único indivíduo podem ter sobre o campo mental. Não há como se fugir do fato de que todas as coisas, grandes ou pequenas, exercem algum tipo de efeito (seja ele grande ou pequeno) sobre todas as outras coisas. Estamos perambulando em algum campo da mente — composto de uma infinita acumulação de imagens, impressões e intenções — onde todas as pequenas partículas da vida impactam e influenciam uma à outra. Tudo o que é manifesto se encontra e se mistura dentro do campo mental, movendo-se constantemente em direção a uma maior mutualidade. Durante todo o percurso, indivíduos diferentes inserem graus variados de influência no campo mental — e quanto mais potente a absorção do indivíduo, mais potente o impacto sobre o campo mental.
Freqüentemente, indivíduos isolados como Mohandas K. Gandhi ou Martin Luther King Jr., podem intencionalmente causaram impacto sobre o campo mental que agitam e reverberam através do mundo e por toda a história. Tanto Mahatma Gandhi quanto o Dr. King estavam atentos a uma consciência coletiva, e foi desta perspectiva que eles promoveram o princípio das relações corretas. Alas, consciente ou inconscientemente, de modo útil ou pernicioso, todos os seres humanos exercem algum tipo de impacto sobre a mente coletiva.
O velho camponês era um místico muito sensato e prático. Ele sabia, como todos os místicos sempre souberam, que todas as coisas são vivas e toda a vida está relacionada. Sabia que ultrapassava os seus próprios limites e este era o seu modo de se adaptar. A execução honrada dos deveres de sua posição assim o exigia, e sua experiência e sua própria natureza (e talvez ambas sejam a mesma coisa) providenciavam isso. Ele não se intrometia naquilo que não residia dentro de sua esfera de relatividade: foi a sua própria imagem pessoal que se desvaneceu das minhas fotos (aquela de sua esposa seguiu-se à sua), enquanto todas as minhas outras fotografias saíram boas e perduraram.
O velho camponês passou toda a sua vida cultivando o campo mental. Ele o fez com integridade. Operava com a natureza e as estações. Era a sua responsabilidade e a sua contribuição. E era em beneficio de seus familiares. Ele compreendia bem a plantação, a cultura e a colheita”.
(Extraído da obra ‘Místicos, Mágicos e Curandeiros’, pg.15/37. Doug Boyd. L&PM Editores.1993). [®].
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fevereiro 2, 2008 at 5:29 pm
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