‘O TESOURO ESCONDIDO’ – Joseph Campbell (Parece Verídico!)

     “Certa noite, o devoto e fiel rabino Eisik teve um sonho, no qual lhe era ordenado que fizesse uma longa viagem até Praga, capital da Boêmia [hoje Rep. Tcheca], para lá descobrir um tesouro escondido, enterrado sob a ponte principal que levava ao castelo do rei. Surpreso, o rabino adiou a partida. Mas o sonho repetiu-se por mais duas vezes. Depois do terceiro aviso, reuniu coragem e iniciou a jornada.
     Chegando à cidade que era seu destino, o rabino Eisik viu que sentinelas guardavam a ponte dia e noite; e não se atreveu, portanto, a fazer nenhuma escavação. Limitava-se a voltar a cada manhã e a perambular até o anoitecer; ficava a olhar a ponte, observando as sentinelas e examinando, sem tentar coisa alguma, a alvenaria e o solo.
     Por fim, o capitão dos guardas, curioso com a insistente presença do ancião, aproximou-se e perguntou-lhe com gentileza se perdera alguma coisa ou se esperava alguém. Era um capitão simpático, apesar de seu bigode feroz, e Eisik sentiu afeição por ele. O rabino, com simplicidade confiante, contou-lhe então o sonho, e o oficial recuou um passo, rindo:
     – És, na verdade, um pobre homem! – disse-lhe o capitão. Gastaste os sapatos nessa longa caminhada só por causa de um sonho? Quem, sendo sensato, acreditaria em sonhos? Olha, se eu acreditasse neles, estaria fazendo o contrário do que faço neste preciso momento. Teria feito uma peregrinação tão tola como a tua, com a diferença de que tomaria a direção oposta, mas chegando, sem dúvida, a um resultado igual. Deixa-me contar-te o meu sonho.
     – Sonhei com uma voz, que me falou de Cracóvia – disse o oficial cristão da guarda boêmia. Ordenou-me que fosse até lá procurar um grande tesouro na casa de um rabino chamado Eisik, filho de Jekel! – riu-se de novo o capitão, com um brilho no olhar.
     – Imagina só, ir até Cracóvia e pôr abaixo as paredes de todas as casas do gueto, onde o nome de metade dos homens é Eisik e da outra metade Jekel! Eisik, filho de Jekel, além de tudo! – e ria sem parar dessa inacreditável pilhéria.
     O modesto rabino porém ouviu-o com ansiedade; agradeceu ao amigo estrangeiro e, despedindo-se com uma grande mesura, voltou apressado ao lar distante. Escavou um canto esquecido da casa e descobriu o tesouro, que o livrou da miséria. Construiu, então, com parte do dinheiro, uma casa de orações que até hoje leva o seu nome”.
    Essa história, uma aventura de sentido profundo, contada pelo rabino Eisik filho de Jekel, que viveu no gueto de Cracóvia, antiga capital da Polônia, faz parte de Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia, de Heinrich Zimmer – obra compilada por Joseph Campbell. Essa história, uma aventura de sentido profundo, contada pelo rabino Eisik filho de Jekel, que viveu no gueto de Cracóvia, antiga capital da Polônia, faz parte de Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia, de Heinrich Zimmer – obra compilada por Joseph Campbell.
Campbell percebeu, ao lê-la pela primeira vez, estar vivendo e agindo segundo as suas normas, desde que o tesouro espiritual milenar dos mitos e símbolos hindus, começou a revelar-se em seus estudos acadêmicos das mandalas e diagramas sagrados da Índia:
“Ora, o verdadeiro tesouro que põe fim à nossa miséria e às provações nunca está muito distante; não deve ser procurado em nenhuma região longínqua; está enterrado no mais profundo recesso de nossa morada, ou seja, em nosso próprio ser. Está atrás do fogão [situado no centro da casa nos países frios europeus, para aquecê-la], o centro daquela estrutura que proporciona vida e calor à existência, no âmago dos âmagos – só é preciso desenterrá-lo!”
   “Persiste, porém, o estranho fato de que apenas depois da longa jornada a uma região distante, a um país estrangeiro, a uma terra estranha, o significado da voz interior que guiará nossa busca nos possa ser revelado.
“Enquanto se dá esse fato singular, ocorre um outro [sincronístico] paralelamente: quem nos revela o significado de nossa enigmática mensagem interior deve ser um estrangeiro, de outro credo e outra raça”.

“Na Boêmia, sobre a ponte, o capitão mostrou não crer em vozes interiores nem em sonhos; entretanto, revelou ao estrangeiro vindo de longe aquilo que terminaria com os problemas e faria com que encontrasse o que buscava. Não foi intencional a maravilhosa revelação; ao contrário, sua notável mensagem foi transmitida de modo inadvertido, enquanto ele [o oficial] se vangloriava da própria argúcia”.
“Os mitos e símbolos hindus, bem como outros símbolos da sabedoria de terras longínquas, falam-nos, da mesma maneira de nosso próprio tesouro. É preciso, então, que o desenterremos, escavando o recôndito esquecido de nosso ser. Ele porá fim às nossas aflições e permitirá que construamos, em benefício de todos os que nos rodeiam, um templo dedicado ao espírito vivente”. [Cf. obra cit. p. 176/178, 1989, Ed. Palas Athena].
Na Conclusão do livro, Campbell ainda salienta:
“O fato de que a virtude, sabedoria e inspiração, possam ser encontradas entre os inimigos históricos do cristianismo, foi reconhecido pela liberal doutrina ortodoxa medieval”…
“Durante a Renascença, chegou mesmo a haver um momento (representado de modo admirável pela figura de Pico della Mirândola)” – [e também a Reforma e o histórico surgimento da rosa-cruz na Europa] -, “em que os últimos baluartes da exclusão ortodoxa pareceram a ponto de render-se, considerando-se Ovídio, Homero, a Cabala e o Alcorão, como basicamente concordes com os opúsculos sagrados do movimento cristão. Por trás da multiplicidade de símbolos, uma tradição universal perene e muito sofisticada da sabedoria humana foi reconhecida com júbilo e esteve a ponto de ser aceita pelos defensores da “fé única e verdadeira.” [Cf. Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia,. p.176/9, Ed. Palas Athena, 1989.].
     [E Paulo, já dizia: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um Corpo [Crístico], quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”. – [I Cor. 12:13].
    Muito embora os movimentos religiosos estejam sujeitos à fabilidade humana, o notável filósofo hindu, Ananda K. Coomaraswamy, afirma com profunda sabedoria:
“Todas as proposições teológicas fundamentais, como p. ex., a doutrina de “uma única essência e duas naturezas”, segundo a qual “há dois em nós” [o mortal e outro imortal], são comuns a todas as tradições: “Todas as Escrituras clamam pela liberdade do Si-Mesmo”. – [O Self, interior, imortal]:
    “Mas a verdade infalível que todas expressam é uma só; e está se aproximando a época em que terá que ser escrita a Summa da Philosophia Perennis Universalis, baseada em todas as fontes ortodoxas, sejam elas quais forem”. – A. K. Coomaraswamy.[Notas, obra cit. p.179]. 

[Solstício de João, 2003 - magister.lux]

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