O Ovo Cósmico Materno

“O Espaço e tudo o que nele existe é um ovum, cuja casca é o Tempo” – O Livro de Mirdad.
Intróito: Há trinta e cinco anos os astronautas chegavam à Lua: “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”. E um cientista lembrou uma lei cósmica: “Cada passo no exterior, evoca um outro para dentro – ao universo interior”.
Em razão disso, parece-nos adequado divulgar um capítulo de O Livro de Mirdad, do autor libanês Mikhail Naimy. Na obra, narra-se a lenda do mosteiro de nome A Arca, sobre o elevado Pico do Altar, que ali existiria desde os tempos de Noé, e de seu último abade superior, visto ainda vagando solitário pelas ruínas daquele mosteiro.
Um peregrino ouve a lenda, decide galgar a íngreme escarpa rochosa e desvendar o seu mistério. Na subida, defronta provas de sentido iniciático; e encontra Shamadam, o velho superior da Arca, que o acolhe como o escolhido: “O bem-aventurado em cujas mãos deveria entregar o livro sagrado, para ser publicado e entregue ao mundo”.
Essa história dentro de outra, são alegorias da ascensão da consciência ao íngreme monte do Espírito, centro e morada do Self [o Si-mesmo], princípio imortal e real mestre interior, personificado em Mirdad. Mas Shamadam, o ser egocêntrico, usurpa o centro da consciência humana, e não aceita Mirdad como companheiro, nem mestre.
Na verdade, as duas histórias falam da existência e batalha entre duas consciências: à mortal contra a imortal. As lições de sabedoria universal, ensinadas por Mirdad aos sete monges da Arca, evocam misteriosa ressonância em nossos corações e mentes. E podem marcar um evento significativo aos que buscam a eterna Verdade.
Certa manhã na capital paulista, batia cedo à porta um companheiro de jornada, com rascunhos da tradução do inglês de O Livro de Mirdad. Buscava um revisor para a primeira edição brasileira [1965]. A mão da sincronicidade, trazia uma resposta à nossa profunda prece daquela madrugada e a oportunidade de participar do árduo trabalho da falange de Amor puro, que difunde no mundo luz e verdade da única Fonte sagrada.
Que o Ovum Materno, a seguir, possa iluminar qual relâmpago o Caminho!
Acerca do Ovum Materno
[O Livro de Mirdad – Mikhail Naimy]
“No silêncio desta noite, Mirdad gostaria que meditassem sobre o Ovum materno.
O Espaço e tudo o que nele há é um ovum, cuja casca é o Tempo. Este é o Ovum
materno. Envolvendo esse Ovum, como o ar envolve a Terra, está Deus manifestado, o macro-Deus, a vida incorpórea, infinita e inefável.
Encerrado nesse Ovum, está Deus latente, o microdeus, a vida englobada, também infinita e inefável. Conquanto imensurável no que se refere às medidas humanas, o Ovum materno tem limites. Embora ele próprio não seja infinito, está envolto pelo infinito por todos os lados”.
“Os inúmeros ova [plural latino de ovum, ovo], representando todas as coisas e seres, visíveis e invisíveis, estão de tal modo arrumados dentro do Ovum materno que o maior em expansão contém o imediatamente menor, com espaços intermediários, até ao ovum menor de todos, o núcleo central, encerrado no espaço-tempo infinitesimal.
Um ovum dentro de um ovum, dentro de outro ovum, desafiando os números humanos, todos fecundados por Deus – eis aí o Universo, meus companheiros.
No entanto, percebo que minhas palavras são muito escorregadias para as vossas mentes, mas a boa vontade as tornará em degraus seguros e firmes que vos hão de levar à perfeita compreensão. Firmai-vos em mais do que palavras e em mais do que vossas mentes, se desejardes chegar às alturas a que Mirdad deseja que chegueis.”
As palavras são, quando muito, relâmpagos que revelam horizontes; elas não são o caminho para esses horizontes, muito menos os próprios horizontes. Por isso, quando vos falo do Ovum e dos ova, do macrodeus e do microdeus, não vos apegueis à letra, mas segui o relâmpago. Verificareis, então, que minhas palavras são poderosas asas para vossa claudicante compreensão.
Meditai sobre a Natureza que vos cerca. Não verificais que está construída sobre o princípio do ovum? Sim, é no ovum que ireis encontrar a chave de toda a Criação.
É um ovum vossa cabeça, vosso coração e vosso olho. E ova são todos os frutos e sementes; é um ovum toda gota de água, e um ovum o espermatozóide de qualquer criatura viva. E as inúmeras esferas celestes que traçam suas rotas [ovais] sobre a face dos céus, não são todas um ovum que contém a quintessência da vida? O microdeus – em vários estágios de desenvolvimento? Não está toda a vida sendo constantemente incubada e a sair de um ovum para tornar a entrar em outro ovum?
Realmente miraculoso e contínuo é o processo da Criação. A corrente da vida da superfície do Ovum materno parte do centro, e do centro flui incessantemente para a periferia. À medida que se vai expondo no tempo e no espaço, o microdeus e o núcleo central passa de ovum a ovum, da mais baixa à mais alta ordem de vida, sendo a mais baixa a de menor expansão e a mais alta a de maior expansão no Tempo e no Espaço, variando [apenas] o tempo necessário para a passagem do ovum de uma ordem para outra ordem, seja de um piscar de olhos em alguns casos, até um éon [enorme espaço de tempo], em outros. E assim prossegue o processo, até que a casca do Ovum materno seja rompida, e o microdeus possa emergir e fundir-se no macro-Deus.
A vida, pois, é um desenvolvimento, um crescimento e um progresso; não porém como os homens consideram e falam sobre crescimento e progresso, pois, para eles crescimento é um acréscimo de volume, e progresso, o caminhar para a frente. O crescimento porém é uma expansão total no Tempo e no Espaço; e o progresso é um movimento que se estende igualmente em todas as direções: para trás bem como para a frente, para baixo e para os lados, bem como para cima.
O crescimento fundamental, pois, é o crescimento no Espaço; e o progresso fundamental é o avançar no Tempo, fundindo-se no macro-Deus e atingindo a Libertação das cadeias do Tempo e do Espaço, que é a única liberdade que merece tal nome. E esse é o Destino traçado para o homem.
Meditai bem sobre estas palavras, ó monges. A não ser que o vosso próprio sangue assimile com satisfação, vossos esforços para vos libertardes e para libertar os outros poderão acrescentar mais elos às vossas cadeias e às do vosso próximo.”
“Mirdad quer fazer-vos compreender que podeis auxiliar a todos os que anseiam a compreender. Mirdad quer que vos liberteis, para que possais guiar, para a Liberdade, a raça daqueles que anseiam por se libertarem. Eis porque tentará elucidar ainda melhor este princípio do ovum, especialmente naquilo que se refere ao homem.
Todas as ordens de seres abaixo do homem, estão incluídas em um grupo de ova. Há, pois, para as plantas, tantos ova quantas variedades de plantas existem, as mais evoluídas encerrando as menos evoluídas. O mesmo ocorre quanto aos insetos, peixes e mamíferos; sempre os mais evoluídos encerrando todas as ordens da vida abaixo delas até ao núcleo central – [“o ovum menor de todos”].
“Assim como dentro do ovo comum, gema e clara servem para desenvolver e alimentar o embrião nele encerrado, também todos os ova dentro de qualquer ovum servem para alimentar e desenvolver o microdeus ali encerrado.
Em cada ovum sucessivo, o microdeus encontra um alimento espaço-tempo ligeiramente diferente daquele que lhe foi fornecido pelo ovum precedente. Difuso e informe no gás, ele torna-se mais concentrado e aproxima-se de uma forma no líquido; no mineral, assume uma forma definida e com uma fixidez permanente, desprovido ainda daqueles atributos da vida como se manifestam nas formas superiores. No vegetal, toma uma forma com a capacidade de crescer, multiplicar-se e sentir; no animal, sente, move-se, propaga-se e possui memória e rudimentos da capacidade de pensar. Mas, no homem, adquire além de tudo isso uma personalidade [individual] e a capacidade de contemplar, expressar-se e de criar.
Verdade é que a criação dos homens em comparação com à de Deus, semelha a um castelo de cartas construído por uma criança, comparado a um magnífico templo ou um elegante castelo construído por um superarquiteto. Não obstante, é uma criação.
Cada homem torna-se um ovum individual, e o mais evoluído encerra o menos evoluído e também todos os animais, vegetais e ova inferiores, até ao núcleo central. Enquanto o mais evoluído – o Liberto – abrange todos os ova humanos e subumanos.
O tamanho do ovum, que encerra qualquer homem é medido pela amplitude dos horizontes de espaço-tempo desse homem. Enquanto a consciência do Tempo de determinado homem não ultrapassa o curto período que vai de sua infância até o momento presente, e seus horizontes de Espaço não abrangem mais do que seus olhos podem alcançar, os horizontes de outro abrangem passados imemoráveis e futuros, muito além em distância e léguas de espaço ainda não atingidos pelos olhos.
O alimento fornecido a todos os homens para seu desenvolvimento é o mesmo; não porém é a mesma sua capacidade de alimentar-se e de digerir, pois não saíram do mesmo ovum na mesma ocasião e mesmo lugar. Daí a diferença em suas expansões de espaço-tempo; e também o motivo de não encontrarmos dois exatamente iguais.
Da mesma mesa, tão rica e prodigamente posta diante de dois homens, um banqueteia-se e satisfaz-se com a pureza e a beleza do ouro, enquanto o outro se banqueteia com o próprio ouro e continua sempre faminto. O caçador, em vendo uma corça, é impelido a matá-la e comê-la. O poeta ao ver a mesma corça é transportado, com se tivesse asas, aos espaços-tempos com os quais o caçador jamais sonha.
Micayon, vivendo na mesma Arca em que vive Shamadam, sonha com a liberdade final e o alto da montanha da libertação das cadeias do espaço-tempo, enquanto Shamadam está constantemente amarrando-se com laços e nós de espaço-tempo, cada vez mais extensos e mais fortes. Na realidade, Micayon e Shamadam embora se acotovelem, um ao lado do outro, estão muito longe um do outro. Micayon contém Shamadam; porém Shamadam não contém Micayon. Por isso, Micayon pode compreender Shamadam, mas Shamadam não pode compreender(¹) Micayon.
A vida de um Liberto, toca a vida de todos os homens por todos os lados, pois contém as vidas de todos os homens. No entanto, a vida de nenhum homem toca por todos os lados a vida de um Liberto. Ao homem mais simples, dá a impressão do mais simples dos homens. O altamente evoluído, reconhece-o como altamente evoluído.
Mas há certos aspectos do Liberto, que somente outro Liberto pode perceber e compreender. Eis porque ele é um solitário, e sente-se como quem está no mundo, porém não ser deste mundo.
O microdeus não quer permanecer encerrado. Está sempre trabalhando pela sua libertação da prisão no Tempo e no Espaço, usando uma inteligência muito superior à humana. Nos entes inferiores, os homens chamam [essa inteligência] de instinto. Nos homens comuns, chamam-na de razão. Nos homens superiores, chamam-na de senso profético. E é tudo isso e muito mais do que isso. É aquele poder sem nome, a que alguns deram muito adequadamente o nome de Espírito Santo, e que Mirdad denomina de Espírito da Sagrada Compreensão.
O primeiro filho do homem que rompeu a casca do Tempo e atravessou a fronteira do Espaço, foi chamado com razão de Filho de Deus. Sua compreensão da divindade é adequadamente denominada Espírito Santo. Podeis estar certos de que vós também sois filhos de Deus, e que também em vós o Espírito Santo procura entrar. Trabalhai com Ele e jamais contra Ele.
Enquanto, porém, não houverdes rompido a casca do Tempo e atravessado a fronteira do Espaço, que ninguém diga: “Eu sou Deus”. Antes diga: “Deus é Eu”(²). Conservai bem isto em vossa mente, para que o orgulho e vã imaginação não corrompam os vossos corações, e militem contra o trabalho do Espírito Santo dentro de vós, pois a maior parte dos homens trabalha contra o Espírito Santo, adiando sua libertação final.
Para conquistar o Tempo, tereis de, com o tempo, combater o Tempo. Para vencer o Espaço tereis de deixar que o espaço devore o Espaço. Fazer-se de amável anfitrião, de qualquer um deles, é permanecer prisioneiro de ambos e refém das infindáveis travessuras do bem e do mal.
Aqueles que descobriram seu destino e anseiam por vivê-lo, não perdem tempo embalando o Tempo, nem passos andando no Espaço. No espaço de uma curta vida, poderão enrolar eões e aniquilar imensas vastidões. Eles não esperam que a morte os leve a um ovum próximo aos deles; confiam em que a vida os auxiliará a perfurar e romper a casca de muitos ova de uma só vez.
Para isso precisais estar desapegados de tudo, para que o Tempo e o Espaço não tenham domínio sobre os vossos corações. Quanto mais possuirdes, mais sereis possuídos. Quanto menos possuirdes, menos sereis possuídos.
Sim, sede destituídos de tudo, exceto de vossa Fé, vosso Amor e vosso anseio pela Libertação, por meio da Sagrada Compreensão.” [.]
N.T.: (¹) A palavra compreender, significa: “conter em si”, “abranger” – no sentido do texto.
(²) A tradução mais fiel seria talvez: Deus é o Eu, no sentido do verdadeiro Eu divino.
[Cf. O Livro de Mirdad, Mikhail Naimy, cap.34, Editora Rosacruz] -

1 comentário

  1. celso grecov  disse,

    julho 9, 2009 at 11:18 pm

    Maravilosa explanação!
    Onde encontro este Livro?
    Parabéns pelo site!
    D”eus os abençoe!

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