Fato e Julgamento – Graça e Desgraça – Lao-Tsé Colaboração de Napoleão Xavier

Uma história dos tempos de Lao-Tsé (Colaboração de Napoleão Xavier).

Havia na China antiga um velho camponês muito pobre, possuidor de um lindo cavalo branco, que até imperadores invejavam…
“Reis ofereciam quantias fabulosas pelo animal mas o homem dizia:
- Este cavalo não é um simples cavalo a ser usado por mim, ele é como uma pessoa amiga. E como se pode vender uma pessoa, um amigo?
O homem era pobre, mas jamais o quis vender. Numa certa manhã, descobriu que o cavalo não estava mais na cocheira. A aldeia inteira se reuniu, e as pessoas disseram:
- Seu velho estúpido! Sabíamos que um dia o cavalo seria roubado. Teria sido melhor se o tivesse vendido. Que desgraça!
E o velho respondeu:
- Não cheguem a tanto. Digam simplesmente que o cavalo não está mais na cocheira. Este é o fato: o resto é julgamento. Se é uma desgraça ou uma bênção, não sei, pois este é apenas um fragmento [de um Todo]. Quem pode saber o que virá a seguir?
As pessoas riram do velho. Elas sempre o julgaram meio maluco. Mas quinze dias depois, numa noite, o cavalo voltou. Ele não havia sido roubado, e sim fugido para a floresta. E não apenas isso: trouxe consigo uma dúzia de cavalos selvagens.
Novamente as pessoas se reuniram e disseram:
- Velho, você estava certo. Não se tratava de uma desgraça. Na verdade, provou ser uma bênção.
- Vocês estão novamente se adiantando – falou o velho. Digam apenas que o cavalo está de volta. Quem sabe se é uma bênção ou não? Este é somente um fragmento. Ao ler apenas uma única palavra de uma sentença, como se pode julgar o livro todo?
Desta vez as pessoas nada podiam dizer, mas interiormente pensavam que ele estava errado. Afinal, doze lindos cavalos haviam vindo…
O velho tinha um único filho, que começou a treinar os cavalos selvagens. Uma semana depois, ele caiu de um cavalo e fraturou as pernas. De novo as pessoas se reuniram e uma vez mais julgaram, dizendo:
- Você tinha razão novamente. Foi uma desgraça. Seu único filho perdeu o uso das pernas e na sua velhice ele era seu único amparo. Agora você está mais pobre do que nunca!
- Vocês estão obcecados por julgamentos – retrucou o velho. Não se adiantem tanto. Digam apenas que o meu filho fraturou as pernas. Ninguém sabe se isso é uma desgraça ou uma bênção. A vida vem em fragmentos. Mais do que isso nunca nos é dado.
Aconteceu que, depois de algumas semanas, o país entrou em guerra, e todos os jovens da aldeia foram forçados a se alistar. Só o filho do velho foi deixado para trás, por estar aleijado. A cidade inteira chorava, lamentando-se, porque aquela era uma luta perdida e sabiam que a maior parte dos jovens jamais voltaria.
E outra vez as pessoas vieram até ao velho e disseram:
- Você tinha razão, velho, aquilo se revelou uma bênção. Seu filho pode estar aleijado, mas ainda está com você. Nossos filhos se foram para sempre…
- Vocês continuam julgando – disse o velho, mais uma vez. Ninguém sabe! Digam apenas que seus filhos foram forçados a entrar para o exército e que o meu não foi. Mas somente Tao [Deus], a Totalidade, sabe se isso é uma bênção ou uma desgraça.
Não se deve julgar, pois dessa maneira jamais nos tornaremos unos com a Totalidade. Você ficará obcecado com fragmentos e pulará para conclusões a partir de coisas pequenas. Quando você julga, deixa de crescer. Julgamento significa um estado mental estagnado. E a mente sempre deseja julgar, pois estar em processo [aceitando o fluxo das coisas], parece algo arriscado e desconfortável.
Na verdade, a jornada [da vida] nunca chega ao fim. Um caminho termina, outro começa; uma porta se fecha, outra se abre. Você atinge um cume; descobrirá sempre um outro mais alto.
O Tao (¹), é uma jornada sem fim. Somente os corajosos a ponto de não se importarem com a meta, mas se contentam com a jornada e viver simplesmente o momento presente e nele crescer… somente estes são capazes de caminhar com o Tao, a Totalidade”. [.]
(¹) Nota ML: O termo Tao tem vários significados, mas, “o derradeiro significado do Tao é o Espírito, o divino, o insondável, aquilo que se deve reverenciar no silêncio.”
O I Ching, diz: ”O Tao se manifesta de modo diferente em cada indivíduo, de acordo com o que lhe é próprio. O homem de ação, para o qual a bondade e o amor humanitário têm valor supremo, descobre o Tao dos processos cósmicos e o denomina a suprema bondade: “Deus é Amor”. O homem contemplativo, para o qual a sabedoria tranqüila é o bem supremo, descobre o Tao do universo, e o denomina a suprema sabedoria.
O vulgo vive dia após dia sustentado e nutrido continuamente pelo Tao, mas nada sabe sobre ele, pois vê apenas o que tem diante dos olhos. Pois o caminho do homem superior, que vê não apenas as coisas mas antes o Tao das coisas, é raro. O Tao do universo é, na verdade, a bondade e a sabedoria, mas em sua essência última, o Tao está também além da bondade e da sabedoria”. (I Ching, p.229/231).
 

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