‘A CAVERNA de PLATÃO’
janeiro 28th, 2006 at 8:20 pm (Autoconhecimento e Espiritualidade)
“A Realidade Iluminada e a Caverna de Platão”
Intróito: O mito da Caverna, escrito por Platão na maturidade, faz parte do Livro VII, de ‘A República’, uma das obras de maior interesse no mundo intelectual moderno, talvez mais por suas idéias políticas, do que pela amplitude de significado da sua Filosofia, que fala de dois universos: o do mundo sensível, de sombras e ilusão; e o da Realidade Iluminada.
Platão (429-347 a.C.), célebre filósofo grego, natural de Egina (município de Atenas), estudou música e matemáticas. Iniciado nos Mistérios, foi discípulo da escola pitagórica, dos sofistas e de Sócrates.
Com a morte de Sócrates, amigo e mestre (399 a.C.), Platão viajou ao Egito e à Itália. Após regressar à Grécia, ensinou em Atenas nos Jardins de Academos, de onde deriva o nome Academia dado à sua Escola. É autor de várias obras, entre outras, a ‘Apologia de Sócrates’ e dos magníficos ‘Diálogos’, de que faz parte, ‘A República’, ‘Fédon’, ‘O Banquete’, ‘As Leis’, etc. [.]
ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO
Em presença do Sol, ficarão deslumbrados pelo excesso de luz
- E se o arrastassem dali à força, obrigando-o a galgar a escarpada e áspera subida e não o largassem antes de levá-lo à presença do próprio Sol, não crês que sofreria e se irritaria? E uma vez chegado até a luz, teria os olhos tão ofuscados por ela que não conseguiria enxergar uma só das coisas que agora chamamos realidades?
- Não conseguiria – disse ele – pelo menos no primeiro momento.
- Precisaria acostumar-se, creio eu, para poder chegar a ver as coisas lá de cima. O que veria antes de tudo mais facilmente seriam as sombras; depois as imagens de homens e outros objetos refletidos na água; e por fim os próprios objetos. Alçaria então os olhos para a Lua e as estrelas, e veria o céu noturno muito melhor do que o Sol ou a sua luz durante o dia.
- Como não?
- E finalmente, creio eu, estaria em condições de ver o Sol – não suas imagens refletidas na água ou qualquer outro lugar que não seja o seu, mas o próprio Sol em seu próprio domínio e tal qual é em si mesmo.
- Necessariamente – disse ele.
- Mais tarde, tiraria conclusões a respeito do Sol, compreenderia que ele produz as estações e os anos, governa o mundo das coisas visíveis e é, de certo modo, o autor de tudo aquilo que o nosso prisioneiro libertado e seus companheiros viam no interior da caverna.
- É evidente – concordou Gláucon – que veria primeiro o Sol e depois raciocinaria sobre ele.
- E quando se lembrasse de sua anterior habitação, da ciência da caverna e de seus antigos companheiros de cárcere, não crês que se consideraria feliz por haver mudado e deles sentiria compaixão?
- Com efeito.
- E, se entre esses prisioneiros vigorasse o hábito de conferir honras, louvores e recompensas àqueles que, por conseguirem distinguir com maior penetração as sombras que passavam e observarem melhor quais delas costumavam passar antes, depois ou junto com outras, fossem mais capazes de prever os acontecimentos futuros:
Pensas que aquele outro sentiria saudades de tais honrarias e glórias e ainda invejaria os que a possuíssem? Não diria ele, com Homero, que era preferível “lavrar a terra a serviço de um homem sem patrimônio” ou sofrer qualquer outro destino a viver semelhante vida?
- Sim, creio que preferiria qualquer outro destino a ter uma existência tão miserável.
- Atenta agora no seguinte. Se esse homem voltasse lá para baixo e fosse colocado no seu lugar de antes, não crês que seus olhos se encheriam de trevas como os de quem deixa subitamente a luz do Sol?
- Por certo que sim.
- E se tivesse de dialogar com os que ali permaneceram encadeados e sentenciado a respeito de tais sombras, que, por não se lhe ter ainda acomodado a vista, enxergaria com dificuldade (e não seria curto o tempo necessário para acostumar-se), não te parece que esse homem faria um papel ridículo?
Diriam os outros que ele voltara lá de cima sem olhos e que não valia a pena sequer pensar em uma tal escalada. E não matariam, se pudessem deitar-lhe a mão, a quem tentasse desatá-los e conduzi-los para a luz?
- Não há dúvida – disse ele”.
APLICAÇÃO E SIGNIFICADO DA ALEGORIA – PLATÃO
“Pois bem, amigo Gláucon, essa imagem da Caverna, deve ser aplicada sem tirar nem por ao que antes foi dito.
A caverna-prisão é o mundo das coisas visíveis; a luz do fogo que ali existe é à do Sol, e não me terás compreendido mal se interpretares a subida para o mundo lá em cima e a contemplação das coisas que ali se encontram, com a ascensão da alma para a região inteligível.
Essa é a minha humilde opinião, e que só a Divindade sabe se está certa ou errada. Seja como for, a mim me parece que no mundo inteligível a última coisa que se percebe, e com grande esforço, é a idéia do Bem.
Uma vez percebida, porém, forçoso é concluir que ela é causa de todas as coisas retas e belas, geradora da luz e do senhor da luz no mundo visível, fonte imediata da verdade e do conhecimento no inteligível. E que, [a idéia do Bem], há de tê-la por força diante dos olhos, quem deseje proceder sabiamente em sua vida, privada ou pública.
- Concordo – disse ele – na medida em que alcanço a compreender-te.
- Além disso, não deves estranhar que aqueles que atingem essa visão beatífica, não queiram ocupar-se com as coisas deste mundo; pois suas almas tendem sempre a permanecer nas alturas, e é natural que assim aconteça se nossa alegoria continua a ser verdadeira.
- Sim, muito natural.
- E haverá estranheza em que, ao passar das contemplações divinas às misérias humanas, um homem pareça desajeitado e sumamente ridículo porque, ainda a pestanejar e mal enxergando nas trevas que o rodeiam, se vê obrigado a falar nos tribunais ou em outro lugar qualquer, a respeito das imagens ou sombras de imagens da Justiça, enfrentando as concepções que dessas coisas fazem os que jamais viram a justiça em si?
- Não há nada de estranho nisso – respondeu.
- E qualquer pessoa sensata se lembrará de que os ofuscamentos da visão são de duas espécies e provêm de duas causas: ou de vir da luz para as trevas, ou de passar das trevas para a luz.
E, após refletir que o mesmo acontece com a alma, não se inclinará ao riso quando vir alguma que, por estar ofuscada, é incapaz de discernir as coisas. Antes tratará de averiguar se a alma vem de região mais luminosa e não pode ver na penumbra por falta de costume, ou se, ao passar da escuridão para a luz do dia, ficou deslumbrada pelo excesso de luz.
E considerará ditosa a primeira alma, que de tal modo se conduz e vive, e se compadecerá da outra; ou pelo menos, se sentir desejos de rir desta, será mais razoável se zombasse da alma que desce da região da luz.
- Dizes muito bem.
- Mas, se isto é verdade, devem estar em erro certos educadores que dizem infundir ciência na alma que não a possui, como quem dá vista a olhos cegos.
- Com efeito, assim dizem.
- Ora, o poder e a capacidade de aprender já existem na alma, como mostra nosso argumento. E que, assim como o olho é incapaz de voltar-se das trevas para a luz, sem que corpo inteiro o acompanhe, também a faculdade de conhecer só pode apartar-se do mundo das coisas incertas por meio de um movimento da alma inteira, até que esteja em condições de enfrentar a contemplação do ser, inclusive da parte mais brilhante do ser, que é o que chamamos a idéia do Bem. Não é assim?
- Como não?
- Pode haver uma arte de efetuar essa conversão da maneira mais rápida e eficaz possível; porém não de implantar a faculdade da visão que já existe, mas não está voltada para onde deve e nem encara a verdade.
A virtude do conhecimento possui um poder divino
que pode voltar-se tanto para o mal como para o bem
E assim, enquanto as outras virtudes, chamadas virtudes da alma, parecem assemelhar-se às qualidades do corpo, pois mesmo quando não são inatas podem ser implantadas mais tarde pelo hábito e o exercício – a virtude do conhecimento, mais do que outra, contém certo elemento divino que jamais perde o seu poder, e que, conforme a direção para que se volte, pode revelar-se útil e vantajoso ou, ao contrário, inútil e nocivo.
Nunca notaste com quanta agudeza percebe a alma pequena daqueles de quem se diz que são maus, porém inteligentes, e com que penetração discerne os meios apropriados aos seus fins? Esses homens nada têm de cegos, mas a agudeza da vista está a serviço da maldade, de tal modo que, quanto maior for sua perspicácia, maiores os males que cometerão.
- Com efeito.
- Pois bem, se tais naturezas houvessem sido submetidas desde crianças a uma poda e extirpação dos prazeres sensoriais, como a gula do comer e a bebida, que, como excrescências plúmbeas, aderem a elas desde o nascimento e mantêm voltada para baixo a visão da alma – se, como digo, tivessem sido libertadas desses empecilhos e voltadas na direção oposta, a visão da alma lhes permitiria ver a verdade com a maior penetração, como vêem agora aquilo em que mantêm fixado os olhos.
- É muito provável.
- Sim, mas há outra coisa muito provável, ou melhor, uma conseqüência necessária do que acabamos de dizer: que os ineducados e afastados da verdade serão jamais aptos para governar uma cidade, nem tampouco aqueles a quem se permita levar demasiado longe sua educação.
Os primeiros, porque não têm na vida um objetivo único pelo qual possam pautar todas as suas ações, tanto privadas como públicas; e os outros, porque julgando-se transportados já às ilhas dos bem-aventurados, não se dispõem de forma alguma a agir.
- Muito verdadeiro, isto.
- Portanto, compete a nós, como fundadores, empenhar as melhores naturezas a que alcancem esse conhecimento, que dissemos ser o mais elevado de todos. Estes não devem renunciar à ascensão enquanto não houverem chegado até o Bem, mas depois de o contemplarem suficientemente não lhes permitiremos fazer o que agora fazem.
- E que vem a ser isso? – perguntou ele.
Os filósofos devem subir ao mundo superior,
mas depois devem voltar ao inferior
- Permanecerem lá, sem consentir em descer novamente para junto daqueles prisioneiros, participar de seus trabalhos e suas honras, por muito ou pouco que valham.
- Mas isto não é uma injustiça? – objetou Gláucon. – Queres que lhe demos uma vida pior, quando poderiam viver melhor?
- Esqueceste novamente, meu amigo, que a intenção do legislador não é a de tornar uma determinada classe mais feliz do que as outras na cidade, mas esforçar-se para que a cidade inteira seja feliz. Por isso introduz a harmonia entre os cidadãos por meio da força da persuasão, tornando-os benfeitores da comunidade e, portanto, benfeitores uns dos outros. E a própria comunidade os forma, não para que cada um viva como melhor lhe agradar, mas para serem úteis na unificação do Estado.”
Os deveres do filósofo
“Observa, Gláucon, que não haverá injustiça em empenhar os nossos filósofos, com palavras razoáveis, a que cuidem dos demais e os protejam.
Diremos que é natural que em outras cidades os homens de sua classe não participem da política, porque se formam sozinhos e contra a vontade de seus governos. Como são autodidatas, não é de esperar que se achem devedores dos frutos de sua educação a quem quer que seja.
Mas a vós outros pusemos no mundo para serdes chefes da colmeia, reis de vós mesmos e do resto da cidade, melhor e mais completamente educados que aqueles e mais capazes, portanto, de participar dos assuntos públicos e da Filosofia.
Tereis, pois, de descer cada um por seu turno à morada subterrânea dos demais e acostumar-se a enxergar no escuro. Uma vez acostumados, vereis infinitamente melhor do que os habitantes da caverna e conhecereis cada imagem e o que representa, porque já tereis visto o Belo, o justo e o bom em sua verdadeira Essência.
E assim, nossa e vossa cidade viverá à luz do dia e não entre sonhos, como vivem hoje a maior parte delas, onde os homens lutam uns com os outros por sombras sem substância ou disputam entre si o poder como se este fosse um grande bem.
Mas a verdade, creio eu, é que a cidade em que os governantes mais relutam em governar será forçosamente a que viva melhor e com menos dissenções; e a pior, aquela em que se mostram mais ávidos de mando.
- Sim, por certo.
- E crês que nossos pupilos ao ouvirem isto se negarão a compartilhar por turnos e trabalhos da comunidade, quando lhes for permitido passar a maior parte do tempo juntos no mundo do verdadeiro e do puro?
- Impossível, pois são homens justos a quem ordenaremos coisas justas. Mas não há dúvida que aceitarão a magistratura como quem se curva ante a necessidade, ao contrário do que fazem os atuais chefes de Estado.
- Sim, meu amigo, aí é que está a questão. Se encontrares meios de proporcionar aos futuros governantes uma vida melhor que a do atual, é possível que chegues a ter uma cidade bem governada, pois será a única em que mandem os verdadeiros ricos, não em ouro e prata, mas em sabedoria e virtude, que é o que se necessita para ser feliz.
Se forem pobres e famintos de bens pessoais, contando enriquecer na administração dos negócios públicos, então tudo ruirá por terra; porque lutarão entre si pelo mando, e essa guerra doméstica e intestina os perderá tanto a eles como ao resto da cidade.
- Nada mais certo – disse Gláucon.
- E a única espécie de vida que encara com desdém os cargos políticos é a do verdadeiro filósofo. Ou acaso conheces alguma outra?”
“Mas não se trata aqui de um jogo, e sim de fazer com que a alma se volte de um dia escuro como a noite para o dia verdadeiro, isto é, da ascensão para o ser, na qual afirmamos consistir a autêntica Filosofia”.
[Extraído de 'DIÁLOGOS', III, 'A República', p. 267/276. Ediouro. 1974]
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julho 8, 2007 at 9:40 pm
[...] Não conhecemos a verdadeira realidade, na medida em que a totalidade dela não é concebível para nós. Mas possuímos quantidades de sinais da realidade que existe para além da que nos é dado perceber sensorial e intelectualmente. Devemos tentar perceber o que está mais além. [Cf.:Alegoria da Caverna - Platão]. [...]
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[...] da Fraternidade do Graal para a busca da via vertical que liberta da “Caverna de Platão”.[Alegoria da Caverna - Platão]. As duas vias, quando se cruzam, formam uma cruz, símbolo sagrado em antigas [...]
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novembro 20, 2007 at 5:08 pm
[...] No Antigo Egito a cruz era um símbolo sagrado muito antes do cristianismo, bem como entre os mayas, e chamada de “árvore da vida”. O lugar onde as duas hastes se cruzam, corresponde na cruz humana ao centro do coração, templo de o ‘Deus interior’ -, e o santuário onde se deve orar ao “Pai, que está em secreto”. (Mateus, 6:6). Nele, e não no ego, está o poder divino que, nas horas de crise e momentos cruciais, propicia-nos transformar e converter o rumo da vida, buscando a saída de a “Caverna”. [Ver: Alegoria da Caverna - Platão]. [...]
renata disse,
março 30, 2008 at 1:48 pm
alegoria da caverna
Magister Lux » Blog Archive » CONHEÇA O SEU ANJO DA GUARDA – ‘Anjos Cabalísticos’. (Monica Buonfiglio). disse,
setembro 7, 2008 at 11:18 am
[...] Já os falsos “anjos de luz” e forças da região astral, porém aproveitam o acesso à psique humana e a falta de conhecimento, para violentar o nosso livre arbítrio; “sopram” diabólicas idéias ou falsas crenças, tentam iludir, manipular familiares e obstaculizar o caminho espiritual (falamos por experiência própria); tudo isso para manter as pessoas aprisionadas e vampirizar suas energias. ‘MATRIX’, pode não ser apenas ficção cinematográfica; o tema parece inspirado em Platão. [Clic: Alegoria da Caverna]. [...]