A LENDA DO GRAAL – O ‘Parsifal’ de Wagner. (Max Heindel).

“Citarei a verdade onde a encontrar”.
(Richard Bach)

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'Olho-de-Hórus' (direito). Simboliza o Sol e o Espírito divino: 'Olho onisciente que a tudo vê'. magisterlux./ ‘Olho de Hórus’  'Olho-de-Hórus' (esquerdo). Simboliza a Lua e a Alma divina: 'Olho que discerne as trevas'. magisterlux./
‘O Portal aos Mistérios’
Desvelando Segredos da Vida
Fortaleza do Graal cátaro.Montsegur.1973 (Sul da França)
“Ouvis o Chamado? – Agradecei então a Deus por ter-vos concedido ouvi-lo”… (’Parsifal’ – Ato I. Primeira Parte).

[®] Informe Introdutivo:
Richard Wagner [1813-1883], quando leu pela primeira vez o ‘Parzival e Titurel’, de Wolfram von Eschembach [1170-1220], minesinger  alemão e trovador do amor cavalheresco, sentiu-se tocado profundamente pelo tema sobre os Cavaleiros do Graal…

Mas, embora tenha concebido a ópera de ‘Parsifal’ aos 44 anos (1857), precisou atravessar sofridas experiencias e duras provas, como no ‘Ciclos do Anel’, para o seu amadurecimento espiritual, antes de poder finalizá-la em 1882. E foi seu ‘canto de cisne’, pois no ano seguinte ele partia para o seu lendário Montsalvat…

Rei Artur e a Távola Redonda (Enc.Disney.v.4)A simplicidade do belo enredo de Parsifal de Wagner - lembra as histórias do Rei Artur e seus cavaleiros da Távola Redonda -, inspirou-se originalmente nos temas de Chrestien de Troyes (séc. II), trovador cátaro do Sul da França e autor de romances da cavalaria, entre os quais ‘Perceval ou o Conto do Graal’.

A ópera de Wagner parece tocar a reminiscência espiritual das pessoas, que se sentem fascinadas pela beleza e ambiente mágico de Parsifal e a jornada em busca do misterioso Graal, símbolo arquetípico da meta mais elevada que se acha como que esquecida nas profundezas da alma do ser humano.

Teatro de Festivais.Bayreuth.Alemanha.“Quando saí do Teatro dos Festivais [Bayreuth], incapaz de dizer uma só palavra, eu sabia que havia experimentado a suprema grandeza e o supremo sofrimento”… anotou no seu diário Gustav Mahler, maestro e  compositor.

E a cantora Nellie Melba em ‘Melodies and Memories’, diz: “Não posso explicar o que aconteceu comigo durante o 1º Ato. O teatro deixou de existir, eu deixei de existir e apenas meu espírito, fora de meu corpo, flutuava no reino da música pura. Para quê estranha esfera aquela música me transportou? Suponho que nunca saberei”…

Na verdade, podemos encontrar a resposta no tema arquetípico e o simbolismo místico da lenda de Parsifal, que tocam a reminiscência da alma. Este fato torna-se mais compreensível na obra ‘Cristianismo Rosacruz’, em que Max Heindel nos desvela o significado amplo e profundo da lenda da arte de Wagner, como você pode verificar a seguir. [Φ]. (Campos de Raphael).

O PARSIFAL DE WAGNER
(Explicado por Max Heindel)
Parsifal.Libreto da Ópera de Wagner
“Nesta ceia fraternal, preparada dia a dia, assim como na última vez, seremos também hoje confortados. Quem pelo bom ato se alegra pela Ceia será renovado: receberá conforto e ganhará o dom supremo”.  (’Parsifal’. Ato I. Segunda Parte). Richard Wagner.

O ‘Parsifal’ de Wagner, tem início num cenário próximo ao Castelo de Montsalvat. Este é um lugar de paz, onde toda vida é sagrada e os animais e aves não sentem temor algum porque os cavaleiros do Graal, como quaisquer homens verdadeiramente santos, são inofensivos e inocentes, que não matam para comer, e tampouco por esporte, aplicando a todos os seres viventes a máxima: “Vivei e deixai viver”.

Aurorea e Gunermanz, o mais velho dos cavaleiros do Graal, encontra-se sob uma árvore, com dois escudeiros. Despertando de seu repouso noturno, vêem à distância Kundry aproximando-se, galopando num cavalo selvagem. Vemos em Kundry a criatura de dupla existência, uma como servidora do Graal, ansiando servir por todos os meios ao seu alcance aos desígnios dos cavaleiros do Graal, e esta parece ser a sua verdadeira natureza…

A outra existência é vivida como escrava involuntária do mago negro Klingsor, forçada a tentar e mortificar aos cavaleiros do Graal, a quem deseja servir. O portal entre uma e outra existência é a porta do “sono”; e se vê obrigada a servir quem a encontra e a desperta. Se for Gunermanz, torna-se a fiel servidora do Graal; mas, se Klingsor a evoca por meio de suas bruxarias, vê-se forçada a servir seus intentos maléficos, quer ela queira ou não…

Na primeira parte do drama, Kundry veste uma túnica de peles de serpentes, símbolo da doutrina do renascimento* (¹), porque assim como a serpente cria nova pele capa após capa, e a exsuda de si mesma, assim também o Ego (²), no processo evolutivo de seu desenvolvimento, desprende de si  qual serpente um corpo após outro, abandonando cada veículo quando ele se torna endurecido e cristalizado, ou seja, quando perde a sua eficiência.

O renascimento (*) está associado ao ensino da Causalidade, a lei que nos traz os frutos de tudo o que semeamos. É a lei explícita nas palavras de Gunermanz, quando o seu jovem escudeiro expressa sua desconfiança em Kundry, e então Gunermanz responde:

“Ela pode estar sob alguma maldição /Fruto de alguma vida passada que não vemos, /Buscando libertar-se do pecado, /Por meio de obras que lhe parecem boas… /Certamente ser-lhe-á benéfico seguir assim, /Ajudando-se a si mesma quando a outros ajuda”…

Quando Kundry entra em cena, retira do seio um frasco dizendo que o traz da Arábia, esperando seja um bálsamo para o ferimento no flanco de Amfortas, o rei do Graal, cuja ferida lhe causa sofrimentos indizíveis e jamais pôde ser curada. O rei enfermo é trazido então reclinado numa liteira; irá banhar-se no lago próximo, como o faz diariamente, onde dois cisnes nadam, convertendo as águas numa poção balsâmica para seus terríveis sofrimentos.

Amfortas agradece a Kundry, mas diz que acredita não haver alívio para ele enquanto não vier o libertador, profetizado pelo Graal: “Um tolo virgem, inocente, iluminado pela compaixão”. Mas Amfortas pensa que a morte chegará antes da libertação…

Quando retiram Amfortas, quatro dos jovens escudeiros agrupam-se ao redor de Gurnemanz, rogando-lhe que lhes conte a história do Graal e a ferida do rei Amfortas. Todos se recostam sob a árvore, e então Gurnemanz começa:

“Na noite em que nosso Senhor e Salvador, Cristo Jesus, celebrou a última ceia com os discípulos, bebeu o vinho de um certo cálice mais tarde usado por José de Arimatéia para recolher o sangue vital que fluía da ferida no flanco do Redentor. Guardou também a lança sangrenta com a qual o feriram, levando consigo essas relíquias, enfrentando muitos perigos e perseguições. >

“Por último, essas relíquias ficaram sob o encargo dos anjos, até que certa noite um mensageiro místico enviado por Deus a Titurel, pai de Amfortas, pediu-lhe para construir um castelo a fim de recebê-las e guardá-las em segurança…

Ele construiu então o castelo de Montsalvat numa elevada montanha, e ali depositadas as relíquias sob sua custódia e a de um grupo de cavaleiros santos e castos que se lhe agregaram. E Montsalvat converteu-se por fim num centro de poderosas influências espirituais, que fluíam para o mundo exterior… >

“Todavia, longe dali, vivia num vale pagão um cavaleiro negro que, embora não fosse casto, desejava tornar-se cavaleiro do Graal, e para esse fim castrou-se, privando-se da capacidade de gratificar suas paixões, mas estas subsistiam… Ao ver o coração desse homem cheio de sombrios desejos, o rei Titurel recusou admiti-lo. E Klingsor jurou então que se não podia servir o Graal, o Graal o serviria. >