ARTE E SIMBOLOGIA: O Parsifal de Wagner – Max Heindel
novembro 20th, 2007 as 5:08 pm (Histórias e ensinamentos)
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‘O Portal aos Mistérios’
(Olho mágico de Hórus: clic nas imagens)
“Ouvis o Chamado? – Agradecei então a Deus por ter-vos concedido ouvi-lo”. (Parsifal – Ato I. Primeira Parte).
Comentário Introdutivo [®]: Richard Wagner [1813-1883] levou existência atribulada até aos 40 anos, mas sua vida mudou com a amizade do rei Luís II da Baviera e Nietzsche, e casar-se com Cósima Liszt. A criatividade musical se expandiu ao voltar-se para mitos medievais como ‘Parsifal’ e ‘O Anel dos Nibelungos’ – o enredo mágico lembra ‘O Senhor dos Anéis’, de J. J. Tolkien.
Wagner estaria com 32 anos quando leu o ‘Parzival’ de W. von Eschembach [trovador medieval, 1170-1220], sentindo profunda identificação com a lenda do Graal, que contém ensinos da sabedoria de Jesus e a compaixão de Buda. Mas, como no Ciclo do Anel, levaria ainda 25 anos para amadurecer “o Parsifal dentro de si” e iluminasse o caminho no seu coração para completá-lo. Parsifal foi sua última ópera e “canto de cisne”: estreou no Teatro de Festivais em 1882, e no ano seguinte aos 70 anos de idade ele partia para a “Terra de Montsalvat”.
Rica em simbolismo, a história de ‘Parsifal’ decorre num lugar mítico sagrado, o Castelo do Graal em Montsalvat, onde vivem santos cavaleiros, guardiães das relíquias sagradas: a lança que trespassou Jesus na cruz, e a taça do Graal, o cálice da Última Ceia
O cenário do Primeiro Ato mostra uma floresta frondosa e solene, não sombria, e à esquerda um caminho ascendente para o Castelo do Graal. Ao fundo um lago onde cisnes põem em movimento águas balsâmicas -, lago associado ao tanque sanador de Betesda [Evangelho de João, 5:4]. E numa clareira, adormecidos sob frondosa árvore, três cavaleiros são despertados por um toque de trompas vindo do Castelo. Logo eles olham à direita para observar a chegada de estranha e extravagante cavaleira, cuja veste é cingida por uma pele de serpente. É Kundry -, àquela que personifica a alma humana.
Kundry vem por uma via à direita trazendo a poção da Arábia, no intento de curar ou aliviar a ferida de Amfortas; e simboliza que embora o homem procure amenizar a sua dor na via horizontal, não há poção que lhe possa curar o sofrimento do Espírito. Esta dimensão da vida é grande escola cósmica de aprendizado, onde a alma pode crescer e amadurecer no processo depurador e transformador. O toque que vem do Castelo é o Chamado da Fraternidade do Graal, para que desperte e se volte para o Alto, na busca de iluminação e da libertação de o Espírito imortal, o “Deus interior”.
Os dois caminhos no Primeiro Ato indicam uma encruzilhada da vida, um trívio. Na Grécia, Hécate era a deusa das encruzilhadas, sortilégios e ‘guia para os caminhos órficos da purificação’. Ela reunia assim três níveis, o telúrico, o infernal e o celeste: “Cada decisão a se tomar num trívio postula não apenas uma direção horizontal na superfície da terra, mas especialmente a direção vertical para um ou outro dos níveis de vida escolhidos”. [Cf. Hécate. ‘Dicionário Mítico de Junito Brandão, p.486. Vozes].
No Antigo Egito a cruz era um símbolo sagrado muito antes do cristianismo, bem como entre os mayas, e chamada de “árvore da vida”. O lugar onde as duas hastes se cruzam, corresponde na cruz humana ao centro do coração, templo de o ‘Deus interior’ -, e o santuário onde se deve orar ao “Pai, que está em secreto”. (Mateus, 6:6). Nele, e não no ego, está o poder divino que, nas horas de crise e momentos cruciais, propicia-nos transformar e converter o rumo da vida, buscando a saída de a “Caverna”. [Ver: Alegoria da Caverna - Platão].
Voltando a Wagner, um ano antes de estrear Parsifal no Teatro de Festivais de Bayreuth, ele apresentou o Prelúdio para o rei da Baviera, Luís II, seu amigo e protetor. E distribuiu na ocasião esta nota explicativa: “Amor – Fé – Esperança?”.
“Primeiro tema: “Amor”. – “Tomai do meu corpo, tomai do meu sangue, em sinal do nosso Amor”. Segundo tema: “Fé”. Promessa de redenção pela fé segura, vigorosa e exaltada: a fé se declara tenaz até no sofrimento. Quando renovada, a fé responde à promessa das alturas mais etéreas – como que nas asas de nívea pomba a voejar para a Terra – empolgando cada vez mais os corações dos homens, preenchendo o mundo todo, a Natureza toda, com a força mais poderosa, para depois regressar, como que acalmada, para a abóbada celeste”. (Cf. ‘A História das Grandes Óperas’, p. 108, Ernest Newman. Ed. Globo).
O simbolismo espiritual do Parsifal de Wagner atraiu a atenção de Max Heindel, que fundou a Fraternidade Rosacruz de Oceanside-USA (Rosicrucian Fellowship), em 1909; iniciado na Alemanha, ele é autor do ‘Conceito Rosacruz do Cosmos’ e ‘Cristianismo Rosacruz’. Mais tarde (1915), surgiu a ‘AMORC’ – Antiga e Mundial Ordem Rosacruz’ – que, apesar do nome, pratica linha ocultista (desenvolvimento de poderes latentes na personalidade terrena). A Rosacruz Clássica, porém ensina o caminho iniciático joanino-cristão: “Eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor… Convém que Ele cresça e que eu diminua”. (João, 3:28 e 30).
Max Heindel [1865/1919], na obra ‘Cristianismo Rosacruz’ desvenda o simbolismo por trás do Parsifal, e diz: “Wagner fez mais do que simplesmente copiar a lenda. Como tudo o mais, as lendas cristalizam-se pela transmissão e perdem sua beleza. A grandeza de Wagner torna-se evidente por jamais deixar-se limitar em sua expressão por modismos ou credos. Afirmou sempre a prerrogativa da arte para expressar livremente às alegorias”. Em ‘Religião e Arte’, Wagner diz: “Pode-se dizer que onde a religião se torna artificial, é reservado à arte salvar o espírito da religião reconhecendo o valor figurativo do símbolo místico”. [Φ]
Campos de Raphael
A ARTE MUSICAL DE WAGNER – Max Heindel
“Conforme olhamos o universo material ao redor, vemos miríades de formas apresentando certa cor, e muitas emitem definido som. Na realidade todas o fazem, porque existe um tom, mesmo no que chamam de natureza inanimada. O farfalhar da folhagem das árvores ao vento, o murmúrio do regato, o canto do oceano, todos contribuem com um acorde definido na harmonia da Natureza.Destes três atributos da Natureza: Forma, Cor e Som, a forma é a mais estável e tende a permanecer em status quo durante tempo considerável, mudando muito lentamente. A cor, por outro lado, muda com mais rapidez, esmaece, desaparece; e algumas cores mudam de matiz segundo o ângulo da luz. Mas, o som é o mais fugaz dos três: vem e vai, sem que nada possa agarrá-lo ou retê-lo.
Temos também três Artes, a escultura, a pintura e a música, que buscam expressar o Bom, a Verdade e a Beleza, os três atributos do Mundo Anímico [ou psíquico]. O escultor, que lida com a forma, tenta aprisionar a beleza numa estátua de mármore, que desafiará por milênios à inclemência do tempo. Mas, a estátua de mármore é fria e só “fala” aos mais evoluídos, que nela infundem vida própria.
A arte da pintura baseia-se principalmente sobre a cor, sem dar forma tangível às suas criações. Na pintura, toda forma é uma ilusão do ponto de vista material, no entanto, tornam-se mais reais do que a estátua tangível, porque são vivas. Há uma beleza vivente no quadro de um grande artista – uma beleza que muitos podem perceber e apreciar. No caso da pintura, porém, vemos o quadro ser afetado pela mutabilidade da cor: o tempo esmaece seu frescor e uma tela jamais dura tanto quanto uma estátua.
Desse modo, nas artes que se baseiam na forma e na cor, existe uma criação única, permanente, tendo essa característica
A música tem o poder de falar a todos os seres humanos, sem exceção, situando-se dessa maneira mais além das outras artes. A música pode acrescentar algo a nossa maior alegria e apagar as tristezas mais profundas; acalmar as paixões do homem selvagem e estimular até a temeridade ao maior covarde. Ela é a influência mais poderosa, entre aquelas que o homem conhece, para dominar as massas, muito embora alguns a considerem supérflua, quando vista somente do ponto de vista material, como o demonstraram Darwin e Spencer.
Unicamente quando se vai mais além do cenário visível e percebemos que o homem é um ser composto de espírito, alma e corpo, pode-se compreender por que essas três artes e seus produtos nos afetam de modo tão diferente e distinto. Enquanto o homem vive uma vida exterior no mundo da forma, onde opera dentro de uma forma vivente entre outras formas, vive também uma vida interior, que é para ele de maior importância: uma vida cujos sentimentos, pensamentos e emoções criam ante sua “visão interior” imagens e cenas em constante mutação.
E quanto mais completa for sua vida interna, tanto menos necessitará buscar companhia e diversão fora de si mesmo, porque ele é a sua melhor companhia, independentemente de toda diversão externa, da qual tão sedentos estão aqueles cuja vida interior é escassa. Estes são os que conhecem a muitíssimas pessoas, mas, como ainda são estranhos para si mesmos, temem sua própria companhia.
Se analisarmos esta vida interior, verificaremos que é dupla: 1º). A vida anímica, baseada sobre os sentimentos e emoções. 2º). A atividade do Ego* (¹), que dirige todas as ações por meio do pensamento.
E assim como o mundo da matéria é a base onde o corpo denso extrai os materiais de que necessita e é eminentemente o mundo da forma, existe também o mundo da alma, ou mundo do desejo entre os rosacruzes, que é à base das roupagens sutis do que chamamos alma; e este é particularmente o mundo da cor. Mas, o mundo mental, o mundo ainda mais sutil, é a morada do espírito humano, o Ego* [¹], e também o reino do som”.
**Nota [®] [¹]: Ego, aqui se refere a ‘espírito humano’, e não ao ser eu egocêntrico. A Rosacruz Clássica vê no homem um microcosmo de totalidade tríplice: corpo, alma e Espírito. Jung parece falar dessa totalidade, que transcende o ego, quando explica o self (o ‘si-mesmo’): “O self não é somente o centro, mas também a circunferência total, que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente; o self é o centro desta totalidade, assim como o ego é o centro da consciência”… “O self aparece em sonhos, mitos e contos de fada na figura de ‘personalidade supra-ordenada’, tal como um rei, herói, profeta, salvador, etc., ou sob forma de um símbolo da totalidade, como o círculo, o quadrado, a quadratura circuli, a cruz, etc.”… “Ele poderia, igualmente, ser chamado de o “Deus interior”. (Cf. Léxico Junguiano, p.142 e 143, Cultrix, 1997). [Ver tb. Nota (2), Ego: Parsifal de Wagner e o Castelo do Graal].
“Por conseguinte – prossegue Max Heindel -, dessas três artes a música é aquela que exerce maior poder sobre o homem, porque enquanto nos encontramos na vida terrestre, estamos desterrados de nossa morada celeste, e dela geralmente aqui nos esquecemos em meio aos nossos afazeres materiais. A música então nos traz um aroma fragrante, carregado de inexprimíveis nostalgias. Como eco de nosso lar, ela nos recorda a Terra esquecida, onde tudo é paz e alegria. E ainda que, devido às ocupações materiais, não prestemos atenção a isto, o Ego reconhece cada nota como uma mensagem abençoada de sua Pátria, e com ela se regozija.
Esta dissertação sobre a natureza da música, faz-se necessária para podermos apreciar devidamente essa grandiosa obra mestra de Richard Wagner, Parsifal, em que a música e os personagens estão interligados de tal modo uns aos outros, como não se encontra em nenhuma outra produção musical.
O drama de Wagner fundamenta-se na lenda de Parsifal, um mito cuja origem se perde no mistério que sombreia a infância da raça humana. É errôneo pensar que o mito é uma criação da fantasia humana, sem base alguma de verdade. Ao contrário, o mito às vezes é o estuque que esconde as jóias mais preciosas da Verdade espiritual -, pérolas de beleza tão rara e etérea que não podem permanecer expostas ao intelecto material.
Visando ocultá-las e ao mesmo tempo permitir-lhes operar no desenvolvimento espiritual da humanidade, os Grandes Instrutores, invisíveis, mas poderosos, ofertam-nos essas verdades espirituais envoltas no pitoresco simbolismo dos mitos, para atuarem sobre nossos sentimentos, até que chegue o tempo em que o intelecto nascente [o corpo mental em crescimento], esteja desenvolvido espiritual e suficientemente para que possamos, além de sentir, conhecer.
Trata-se do mesmo procedimento que aplicamos na infância de nossos filhos, quando lhes damos ensinos morais por meio de contos e fábulas, reservando os ensinamentos diretos para mais tarde. Wagner, porém fez algo mais do que simplesmente copiar a lenda. As lendas, como tudo o mais, cristalizam-se pela transmissão e perdem sua beleza. Mas, torna-se evidente que a grandeza [do espírito] de Wagner, que jamais se deixou limitar em sua expressão, seja pela fantasia ou credo. Ele afirmou sempre a prerrogativa da Arte para expressar livremente e sem travas as alegorias.
Em sua obra ‘Religião e Arte’, Wagner declarou: “Pode-se dizer que, quando a religião se artificializa, cabe a arte a missão de salvar o espírito da religião, ao reconhecer o valor figurativo do mito simbólico – que a religião pede que acreditemos num sentido literal -, e a arte busca revelar sua oculta e profunda verdade por meio de uma apresentação ideal”.
“Muito embora o sacerdote peça que toda alegoria religiosa seja aceita como um fato, o artista, de modo absoluto, a isto não se deixa sujeitar, e é por isso que, livre e abertamente, apresenta sua obra tal como ele a criou. A religião, porém caiu numa vida artificial, em que se vê obrigada a fazer constantes acréscimos no seu edifício de símbolos dogmáticos, e desta maneira vai relegando a verdade divina sob um crescente amontoado de incredibilidades, que ela recomenda crer”.
“Dando-se conta disto, a religião tratou sempre de buscar o auxílio da arte que, por sua vez, permaneceu incapaz de uma evolução mais elevada, enquanto se viu obrigada a apresentar aos fiéis tal pretensa realidade sob a forma de ídolos e fetiches. A Arte só pode cumprir sua verdadeira vocação, pela apresentação ideal das figuras alegóricas, ao compreender o seu sentido interior – a Verdade inefável e divina”. (Cf. ‘Cristianismo Rosacruz’, p.252/257, Max Heindel. Edit. Kier). [Φ].
LEIA TAMBÉM: PARSIFAL DE WAGNER E O CASTELO DO GRAAL.